Resenhas

Sufjan Stevens – The Age Of Adz

Orquestrações clássicas, Folk característico e influências de música eletrônica compõem trilha sobre fragilidade, vulnerabilidade e desordem interna

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Ano: 2010
Selo: Asthmatic Kitty Records
# Faixas: 22
Estilos: Electro Pop, Indie, Experimental
Duração: 74'
Produção: Sufjan Stevens

A obra de Sufjan Stevens é inegavelmente intensa – seja pela temática de suas letras densas e frágeis, ou por arranjos que nos tocam por meio de complexidade e mistério. São discos que evocam sentimentos poderosos e até, digamos, perigosos, capazes de despertar gatilhos emocionais para alguns ouvintes.

Se nós, distantes deste processo de criação e composição, já nos sentimos completamente abalados e tocados por essa violenta intensidade emocional, como Sufjan Stevens, que está no centro de tudo isso, se preserva diante destes titãs sentimentais? Por vezes, sua obra ressalta temas como a existência mundana e mortal, então tudo isso que circunda sua obra não o afeta em igual intensidade? A resposta dessa questão é bastante pontual: sim, ele se afeta e muito. Uma das maiores provas disso é seu disco The Age Of Adz.

Sexto disco de composições autorais do compositor, The Age Of Adz é um trabalho sobre a dor. Não que seus outros trabalhos não sejam também, mas aqui, parece haver um contato diferente com este sofrimento. Para contextualizar, o processo de composição do álbum foi acompanhado por uma doença viral em Sufjan, que produziu sintomas nervosos intensos. Dores crônicas estavam constantemente presentes na produção do disco, fato que o obrigou a se afastar da música por alguns meses até se recuperar. Essa dolorosa dinâmica, que poderia tê-lo desanimado a continuar o projeto, colocou uma nova perspectiva em voga. A doença, segundo ele, o aproximou mais de si mesmo, de uma maneira física. Talvez por isso, Sufjan tenha afirmado em entrevista que o registro em questão tem um ar muito mais pautado nas sensações e, por consequência, tenha um ar de “melodrama histérico”.

Outra perspectiva que o compositor toma para a construção de The Age Of Adz é a do artista gráfico Royal Robertson, responsável pelo projeto gráfico do disco. Sufjan conheceu o pintor enquanto compunha a trilha sonora de um documentário sobre ele e imediatamente notou uma identificação latente com os conteúdos de suas letras e discos. Royal Robertson conviveu praticamente sua vida inteira com um diagnóstico de esquizofrenia, doença mental que o fazia ter alucinações recorrentes e representá-las em suas peças. A fusão de diferentes temas como espiritualidade, cristandade, cosmos, divindades e oráculos provocou em Sufjan um novo movimento de olhar para si, para sua vulnerabilidade e inevitável confusão. Assim, o desarranjo das obras do artista gráfico aliado à narrativa fantástica e intensa de Sufjan formaram um casamento muito prolífico para ambas as partes. Caótico, porém extraordinário.

A sonoridade apresentada não parece ter sido escolhida aleatoriamente. Sucessor de seu magistral disco Illinois, os arranjos aqui ainda conservam a paixão de Sufjan por arranjos e orquestrações clássicos. Há também espaço para o Folk frágil e característico de outros momentos da carreira do compositor. Entretanto, por todo o trabalho fica espalhado uma influência muito marcante da música eletrônica desconstruída, sob texturas glitch, sintetizadores analógicos e muito barulho. É como se todos os elementos conhecidos da obra de Sufjan estivessem lá, porém atravessados pela desordem. Uma espécie de desarranjo melódico que nos arrebata pela imprevisibilidade e nos atrai pela sinceridade e introspecção de suas melodias.

Há momentos decisivos da carreira de Sufjan nesse disco. A faixa de abertura “Futile Devices”, talvez seja a mais próxima do Folk tradicional e, por isso, nos entrega uma fragilidade expressa tanto no choroso violão quanto em sua letra sobre insegurança – esta canção ganhou uma nova versão para o filme Me Chame Pelo Seu Nome, de 2017. A canção que dá título ao registro coloca a percussão descoordenada junto de belos arranjos de cordas e um vocal psicodélico, em uma espécie de metonímia geral do disco. “Bad Communication”, por sua vez, dispensa as percussões apenas para criar um mar de texturas eletrônicas que parecem afogar a melodia desesperada de Sufjan. “Vesuvius” imprime uma dinâmica quase de Rock Progressivo, nos jogando para diferentes estados de humor em questão de segundos, mas fazendo de uma forma estranhamente harmônica. Por fim, Sufjan opta por não poupar esforços em finalizar o disco com “Impossible Soul”, uma odisseia emocional de 25 minutos que parece sintetizar (se é que é possível organizar esse caos) a grande confusão.

Diante da doença que faz Sufjan olhar para si mesmo, aliado a uma representação gráfica fantástica, epifânica e caótica, estão postos os alicerces fundamentais de The Age Of Adz. Todo esse espectro de vulnerabilidade coloca o compositor diante do que há de mais íntimo em sua psique. E, por mais que haja dor, confusão e toda espécie de sentimento difuso e desorientador, o trabalho que o compositor realiza não é de expulsar isso para fora de si, mas trabalhar a favor da desorganização. Como um elemento intrínseco à sua existência e cuja tentativa de decifrar ou organizar seria totalmente contraproducente. Sufjan é todo este caos que presenciamos no disco e, se somos bombardeados por emoções complexas ao escutar suas canções, é porque ele é, igualmente, todo este magnífico caos difuso.

(The Age Of Adz em uma faixa: “Impossible Soul”) 

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.