Resenhas

Sufjan Stevens – The Ascension

Mesmo com marcas inconfundíveis que percorrem mais de 20 anos de careira, novo disco nos lembra – mais uma vez – que a essência artística de Sufjan Stevens é a transformação

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Ano: 2020
Selo: Asthmatic Kitty
# Faixas: 15
Estilos: Eletrônica, Electropop
Duração: 80'
Produção: Sufjan Stevens

Em uma discografia construída pela variedade ao longo de mais de 20 anos, Sufjan Stevens conquistou o curioso status de um artista que, não importa o que decida produzir, tem cada disco seu como uma surpresa para o público, principalmente nesta última década. Quem acompanhou a trajetória entre o anúncio e o lançamento de The Ascension viu o artista, pela primeira vez, trabalhar singles com clipes, como manda a cartilha do mainstream, e, ainda por cima, se deparou com um ineditismo em sua produção: o popzão dançante com refrão de “Video Game”. Depois de conquistar medalhas no Folk, Indie e Eletrônica, estaria Sufjan diante de seu primeiro trabalho essencialmente Pop? Como a audição do álbum revela, a resposta é, sem hesitar, não.

Ao contrário do que aquele single denotava nas batidas animadinhas e clipe com dançarina do TikTok, The Ascension apresenta um Sufjan caótico como não se via há muito tempo, entre rupturas, ruídos e momentos psicodélicos dentro de sua estética Eletrônica. Em vista disso, é muito mais interessante não apenas perceber as escolhas de produção que adornam suas composições, mas questionar por que ele optou por essa estética Eletrônica. E a resposta parece estar intimamente ligada aos seus dois álbuns anteriores.

Carrie and Lowell (2015) foi um álbum todo feito à luz do falecimento de sua mãe. Mais do que confrontar sua própria mortalidade, ou a noção de morte como um todo, Sufjan optou por falar intimamente sobre como é viver com memórias ruins de alguém que não fará mais parte de suas novas lembranças e todo o estranhamento que vem dessa dinâmica. Anos depois, mais certo do que nunca de sua própria finitude, ele volta ao tema da morte – menos em sua iminência e mais em seu significado. E é aí que voltamos ao existencialismo de The Age of Adz (2010), e também à sua linguagem.

Aquele álbum ficou marcado na discografia do músico como seu primeiro momento dentro da música Eletrônica. Depois de tanto cantar sobre lugares por onde passou e histórias que viveu com instrumentos físicos, ele explorou as sonoridades dos sintetizadores para dialogar com temas muito mais abstratos. 10 anos depois, The Ascension resgata esses recursos sem qualquer inibição e os leva a lugares ainda mais expansivos – o novo disco faz The Age of Adz, com suas faixas longuíssimas e batidas tão fortes, parecer até mesmo “tímido”.

Nele, há um enorme senso de urgência desde a primeira faixa (“Make Me an Offer I Cannot Refuse”), em versos como “I have lost my patience” e “Show me the face of all of my dreams / Was it all for nothing?”. A tensão é quebrada na romântica “Run Away With Me”, com batidas arrastadas que crescem até uma quebra psicodélica – ao falar de amor, ele vem como um delírio, ou sonho. É por isso que faixas como “Lamentations” e “Sugar”, sobre romances que se recusam a se concretizar, têm uma inquietação latente em versos como “Don’t make me wait too long / Don’t make me sing a sad song”.

O amor surge como a representação daquilo que torna a vida maior, daí sua busca constante, enquanto o tema da morte chega para contrastar com essa infinitude, como a sombra que existe ao redor dessa luz. Quando ele pede “My love, I lost my faith in everything / Tell me you love me anyway” (em “Tell Me You Love Me”), como se ser amado compensasse suas lacunas, Sufjan constrói na sequência toda uma música na repetição do verso “I wanna die happy” (“Die Happy”), frase que se torna menos uma constatação e mais um lamento à medida em que canta.

Esse clima triste é o que fala mais alto em The Ascension, com a morte aparecendo também em “Death Star”, “Goodbye to All That” e na faixa-título, além de problemas de saúde mental na aflita “Ativan” e a descrença na sociedade e na cultura em “America”. Aproveitando a transcendentalidade que ele sabe construir em sua música, o artista comunica sua mensagem deixando os loops e as repetições nos versos terem uma cara mântrica, como se eles reverberassem no ouvinte para além da compreensão lógica das palavras. É um álbum que, como seu título sugere, cresce sonoramente em uma espiral como uma pintura barroca – arte que carrega também diversos paralelos com o que Sufjan sempre produziu, não só neste disco.

É quando nos lembramos disso que questionamos a qual o amor se refere – se é uma pessoa ou se estamos falando de espiritualidade. Assim como lhe é de costume, o músico mistura figuras mitológicas (“Gilgamesh”) e linguagem bíblica (“Ursa Major”) em sua poesia, embora aqui escolha principalmente frases mais diretas para se comunicar, o que argumenta a favor da já questionada intenção Pop que o disco pode ter. Seja pelas escolhas de timbres ou por sua natureza surpreendente a cada detalhe, The Ascension não esconde ser um trabalho com a marca Sufjan Stevens, e ele nos lembra que, assim como nossos diálogos com fé, filosofia e arte estão sempre em desenvolvimento, ele é um artista cuja essência está baseada na transformação.

(The Ascension em uma faixa: “Die Happy”)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.