Resenhas

Sun Kil Moon – Common As Light And Love Are Red Valleys Of Blood

Álbum duplo amplia limites musicais de Mark Kozelek

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Ano: 2017
Selo: Caldo Verde
# Faixas: 16
Estilos: Folk, Folk Alternativo, Singer-Songwriter
Duração: 2h09
Nota: 3.5
Produção: Mark Kozelek

Não é surpresa que Mark Kozelek, o cérebro por trás de Sun Kil Moon, pareça prestes a expandir suas fronteiras musicais. Seu mais recente álbum, Common As Light And Love Are Red Valleys Of Blood tem proximidades estéticas inéditas com novas formas, especialmente o Rap. Não que Kozelek leve jeito pra coisa, mas sua prosa musical contemporânea o leva para terrenos nos quais o Folk com base voz/violão não consegue chegar. Ao longo de 16 canções enormes, nenhuma com duração inferior a cinco minutos, ele conduz o ouvinte a dois cenários principais: sua mente e seu país. E mistura ambos, em vários redemoinhos existenciais, oferecendo narrativas fortes, cínicas, doídas, mas aparentemente 100% verdadeiras.

Novamente com a presença de Steve Shelley na bateria, Mark se permite arranhar baixo, teclados e saxofone, além de sua habitual destreza no violão/guitarra, permitindo novas possibilidades para as canções, que se beneficiam disso. Mesmo assim, tudo aqui é totalmente próprio da verve habitual do sujeito. Muita letra sobre morte de pessoas, sobre o cinismo das pessoas, suas reminiscências do passado, sua dificuldade em lidar com a criação dos filhos, tudo soando como um diário que Kozelek acha por bem expor para sua audiência. A sinceridade cortante é o principal trunfo, cativando o ouvinte, que, num movimento inconsciente, se vê na pele do cantor e/ou procura por fatos semelhantes em sua vida, num mecanismo imediato de identificação. A total fruição das canções só é possível com um conhecimento acima da média de inglês, do contrário, o tédio tomará conta e encampará a audição.

Quem estiver aparelhado com fluência no idioma será recompensado com ótimas canções. Philadelphia Cop é uma narrativa que ultrapassa os dez minutos de duração e que faz várias menções à morte de David Bowie e do tanto que Kozelek ouviu o álbum Young Americans, chegando a emular um trecho da faixa-título. I Love Portugal tem um andamento plácido de natureza Folk Rock, mostrando que muito do álbum foi composto com Mark em turnê pelos Estados Unidos e Europa. As observações sobre fãs portugueses e sua alegria também são interessantes e, na medida do possível, doces, para um sujeito naturalmente tão amargo. Uma levada que ostenta versão minimalista de um teclado à la The Doors conduz Bastille Day, que clama as pessoas a se insurgirem contra opressões de diferentes tipos, usando o atentado à casa noturna Le Bataclan, em Paris, como metáfora e pano de fundo desta necessidade.

O olhar pessoal sobre seu passado é traço marcante da verve de Mark e ele está presente de forma contundente em God Bless Ohio e Seventies TV Show Theme Song mas sua preocupação com críticas à sua forma de escrever e compor surge devastadora na irônica e caústica Vague Rock Song, na qual ele emula uma canção banal para abortar todas suas possibilidades de harmonia logo adiante, com guitarras em profusão e múltiplos andamentos, numa clara de declaração de autonomia sobre seu trabalho e uma falta de disposição em empreender qualquer alteração que não seja fruto de sua própria vontade de explorar suas possibilidades. Ele está certo.

Common As Light And Love Are Red Valleys Of Blood é um disco duplo com mais de duas horas de duração. É muita informação para o ouvinte regular absorver de uma só vez, mas sua degustação continuada revela um compositor inquieto em constante luta para sintetizar suas experiências mais pessoais em forma de canção. Esta obsessão é a marca principal de Mark Kozelek e ele não parece disposto a abrir mão disso tão cedo. Sorte nossa.

(Common As Light And Love Are Red Valleys Of Blood em uma música: God Bless Ohio)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.