Resenhas

Sunday Service – Jesus Is Born

Mais interessante que o antecessor “Jesus Is King”, novo projeto da fase gospel de Kanye West, mergulha profundamente no gênero

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Ano: 2019
Selo: INC
# Faixas: 19
Estilos: Gospel
Duração: 83'
Produção: Kanye West, Jason White, Nikki Grier e Philip Cornish

Depois de atrasar o lançamento de Jesus Is King, Kanye West cumpriu a promessa seguinte. No dia 25 de dezembro, Jesus Is Born deu o ar da graça nas principais plataformas digitais do mundo, creditado ao Sunday Service e não a seu idealizador e líder. Talvez por esse motivo – ou, vai ver, por ter passado despercebido em meio às ceias natalinas –, o disco estreou “apenas” no 73º lugar das paradas dos Estados Unidos e rendeu bem menos análises, resenhas e repercussão por aí do que de costume, pelo menos quando falamos de um novo trabalho de Kanye West. Mas, afinal, Jesus Is Born faz parte da tão celebrada e comentada discografia de Kanye? 

Ao longo de 19 faixas e quase uma hora e meia, escutamos: uma imersão profunda e festiva pelo gospel. Não escutamos: qualquer sinal da voz do rapper. Ainda que produzido e alardeado por Kanye, basta uma audição para confirmar que se trata de um disco do Sunday Service, seja pela ausência do líder ou pela própria identidade sonora do projeto. Se Jesus Is King, mesmo que tímida e pouco ousada, realiza uma fusão do Rap com o universo gospel, seu sucessor é, do início ao fim, uma devoção total ao gospel, quase que completamente guiada apenas por coros. Mas, apesar de as mesclas com a música secular aparecerem apenas em releituras e versões, o resultado – bem mais rico e arrebatador do que em JIK – serve como bela porta de entrada, para entusiastas de Kanye, ao gospel “verdadeiro”. 

As marcas mais inconfundíveis de Kanye surgem especialmente nas reinterpretações de “Ultralight Beam” e “Father Stretch” – a segunda amplia o trecho da canção de Pastor T.L. Barrett, mantém o refrão da original (o que caiu como uma luva) e exclui obviamente os versos infames que vêm a seguir. Considerando que Kanye disse que The Life Of Pablo (2016), álbum da qual a faixa faz parte, é um projeto “gospel com muito xingamentos”, “Father Stretch” passa por um eficaz filtro que, além de retirar palavras de baixo calão, adiciona celebração e espiritualidade, destacando a poderosa bateria que guia os coros após a explosão do refrão – com o famoso “beautiful morning” ganhando poderes muito mais redentores.

Outra ótima reconstrução de produções anteriores de Kanye é “Follow Me/Faith”, trazendo a nostalgia do House de Chicago, com a utilização da linha de baixo de “Follow Me”, hit noventista do grupo Aly-Us, que desemboca na revisão de “Fade”, mais uma canção de The Life Of Pablo. Em meio a órgãos, sopros e palmas, os onipresentes coros trocam “Deep down inside” por “He’s – he’s alive”. Mas os grandes destaques do repertório são inegavelmente as apropriações de canções de outros artistas – distantes ou não do gospel –, que foram repaginadas aos moldes do Sunday Service.

“You Brought The Sunshine”, música das Clark Sisters lançada em 1981, vira a enérgica “Sunshine”, com citação certeira da imortal convenção de “Master Blaster (Jammin’)”, de Stevie Wonder. O trio nova-iorquino SWV, que fez barulho pelo R&B do início dos anos 1990, é homenageado nas versões de “Weak” (hit que acabou com o reinado de dois meses “That’s The Way Love Goes”, de Janet Jackson, nas paradas das Billboard, em 1993) e na melodiosa “Rain”. Ainda há espaço para desacelerar e espiritualizar “Back To Life”, do Soul II Soul, sucesso da Disco no início da década de 1990, e para transformar “Elastic Heart”, de Sia, em “Lift Up Yourself Voices”. Entre as incursões pela obra de artistas estritamente do gospel, destacam-se “More Than Anything”, de Lamar Campbell, e “Satan, We’re Gonna Tear Your Kingdom Down”, que reproduz com fidelidade a canção de Shirley Caesar lançada na década de 1970. 

Com coros impecáveis, instrumentais econômicos e melodias comoventes, Jesus Is Born é mais interessante do que seu antecessor na missão de espalhar o gospel (e a palavra), mesmo não havendo fusão a elementos dos Hip Hop ou a outras propostas sonoras mais usuais do rapper. Não é exatamente um disco dele, mas, sim, um capítulo especial somado a tantos outros capítulos que ajudam a entender uma jornada maluca e criativa pela última década. E esse capítulo, que pode ser tanto fechamento quanto início, embora sem o burburinho de sempre, chegou com a potência musical e criativa que caracteriza a carreira de Kanye West. 

(Jesus Is Born em uma faixa: “Weak”)

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ARTISTA: Kanye West