Resenhas

Supercordas – Terceira Terra

Terceiro disco da banda carioca acerta em seguir sua sonoridade já conhecida

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Ano: 2015
Selo: Balaclava
# Faixas: 11
Estilos: Rock Psicodélico, Rock Alternativo
Duração: 43:05
Nota: 4.0
Produção: Gui Jesus Toledo e Supercordas

E temos novamente a Psicodelia retrô-intencional de Supercordas para abrilhantar as playlists e mentes dos admiradores e não-iniciados no ideário musical do grupo carioca. Para tranquilidade dos ouvintes, a banda não mexeu em sua noção musical básica, a de ser uma formação preservada de toda a evolução da canção popular desde, digamos, 1967. O vocabulário estético que o vocalista e mastermind Bonifrate e seus amigos se valem é das experimentações, misturas, doideiras, elfos saltitando pelo jardim das delícias que é secreto e habita a mente de Alice ou do próprio Coelho, algo muito lôko, bicho. Felizmente, repito, a argamassa sonora permanece intacta e podemos acompanhar a evolução subterrânea e sutil que a obra do grupo experimenta. Sim, não é mais do mesmo, pelo contrário.

Supercordas, uma vez assumidamente retrô, não se dá ao trabalho de assumir novas linguagens, preferindo seguir confortável em seu nicho. Mas a sutileza da mudança está no discurso das canções, na ideia de que a banda deixa de ser inocente ao cantar bichos, plantas e visões idílicas de uma fauna/flora/primavera que, se funcionava como alegoria, poderia cansar após a repetição. Sendo assim, este terceiro disco, ou, se preferirem, esta Terceira Terra, é urbana, desencantada, mas que recebe lufadas de cor/som por conta da banda, como se o caminho continuasse após esse mar de concreto, pessoas cinzentas e distópicas. Enquanto estivermos convidados pelo grupo a permanecer por aqui, também receberemos suas impressões sobre essa paisagem estranha e estéril. Este parece ser o conceito por trás do álbum, o que amarra tudo e justifica as escolhas.

Com uma faixa de abertura intitulada Fundação Roberto Marinho Blues & Co., a banda dá a partida neste caminho sonoro em câmera lenta e intencional. O primeiro single, Maria 3, se apresenta como uma boa indicação desse progresso discreto. Letra com tudo em cima, instrumental criativo e bem construído, a faixa é uma belezinha e ainda traz a presença do guitarrista Benke Ferraz, da banda Boogarins. Outro bom exemplo dessa evolução constante é a ótima Sinédoque, Mulher, trazendo vocais que poderiam ser de um Raul Seixas adolescente imerso num tanque de substâncias estranhas e coloridas. A levada que se insinua por baixo dos efeitos de guitarras e eletronicices de estúdio é enxuta e em pé de igualdade – melhor, na verdade – em relação ao que bandas “hypadas” como MGMT fazem por aí. Ipupiara, que parece ser mais conservadora, na verdade, fala do processo de catequese feita por sacerdotes de ética duvidosa, impondo crenças a índios multicoloridos e habitando paisagens equidistantes entre o Atlântico e o Pacífico.

Espectralismo Ou Barbárie é outro exemplo – desta vez, mais evidente – da evolução experimentada por Supercordas. Com batida eletrônica, voz soterrada de efeitos que brincam e esconde-esconde, melodia concêntrica e um raro equilíbrio entre sintético e natural, a canção é um dos grandes destaques do álbum. Com vinhetas chamadas Primeira Terra e Segunda Terra em pontos chave do disco, a faixa-título chega no final do percurso sonoro, ostentando ricos sete minutos e 38 segundos, cheia de exuberância, ruídos, detalhes, pianos, (super)cordas, órgãos, soando como uma volta derradeira ao ambiente mais idealizado, indígena, nativo e reclamando uma identidade com esse ecossistema, como se, sob todas as alegorias e distrações, existisse um kit de sobrevivência essencial que consiste dessa afinidade meio Avatar que carregamos entre nós e essa entidade estranha e enorme que é a Natureza.

Se as impressões que Terceira Terra passa são as descritas nesta resenha, ótimo. Se forem totalmente diferentes para você, melhor ainda. Supercordas é dessas bandas que buscam a música como algo que proporciona certa transcendência e as paisagens ficam por conta do freguês, seja ele quem for. Belo disco.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.