Resenhas

Sven Wunder – Eastern Flower (Doğu Çiçekleri)

Mesclando referências turcas, psicodelia e Funk, trabalho do músico sueco sustenta uma aura nostálgica e misteriosa

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Ano: 2020
Selo: Piano Piano Records/Light In The Attic Records
# Faixas: 13
Estilos: Psicodélico, Funk, Música Turca
Duração: 37'
Produção: Sven Wunder

Sven Wunder é um nome envolto em mistério. O músico nascido na Suécia conserva uma característica de ermitão, isolado e pouco preocupado com uma carreira musical padrão repleta de turnês e divulgação de disco. Logo, pouco se sabe também sobre seu registro de estreia, Wabi Sabi. Relançado este ano pelo selo Piano Piano Records, ele chamou atenção de alguns pesquisadores musicais pela refinada aura da música folclórica Turca, uma área na qual Sven parece ser uma espécie de especialista, dado a minúcia de suas experimentações com o gênero. Mas não é apenas em sua biografia que o mistério reside. Ele também está claramente expresso e atravessado pela sua sonoridade, em uma quantidade suficiente para deixar o ouvinte instigado, mas sempre querendo compreender um pouco mais, embora Sven nunca permita que entremos totalmente em seu mundo.

Esta é a premissa de Eastern Flowers, registro originalmente lançado em 2019 pelo selo Piano Piano Records e reprensado em nova tiragem pelo selo Light In The Attic Records, neste ano. O registro, de título original Doğu Çiçekleri, traz uma intensa jornada pela música Turca permeada de referências psicodélicas específicas da safra do começo dos anos 1970, como The Doors, por exemplo. Além disso, Sven coloca na mesa arranjos groovados, mesmo que os construa a partir de instrumentos tipicamente turcos, como o Saz (uma espécie de violão maior e de som mais grave). Tudo isso mixado e masterizado com um espectro sono que prioriza as frequências médias, como se estivéssemos escutando o disco diretamente de um rádio velho, contribuindo ainda mais para o aspecto nostálgico de Eastern Flowers.

O grande barato da proposta de Sven não é produzir um disco pelo puro narcisismo nostálgico. As composições cumprem a diferentes propósitos, evocando sensações diferentes que acabam por lembrar o ouvinte de momentos específicos – ou ainda, cenas muito específicas. A primeira faixa, “Black Iris”, apresenta aos poucos a influência psicodélica, por meio de guitarras brandas simulando cítaras, e que, repentinamente, ganha ritmo e contribui com a batida Funk lenta. “Lotus” traz aquela aura estereotipada de um “mistério do oriente”, reforçada pelo cativante e estrondoso “riff” que mistura o Saz e uma guitarra repleta de wah-wah.

“Hibiscus” traz um sentimento mais festivo, apesar de sustentar um som no fundo que dá ao ouvinte uma sensação de tensão iminente. “Chamomile”, mais pesada por seu baixo grave, é a que mais foge da influência turca, podendo tranquilamente ser abertura de uma série de detetives policiais dos anos 1970. Por fim, “Gilboa Iris” encerra o disco de forma magistral, com arranjos épicos de metais repleto de dissonâncias do ambiente que contribuem para terminar essa viagem em seu ponto máximo.

Eastern Flowers (Doğu Çiçekleri) traz uma mistura de elementos precisamente orquestrados. A nostalgia derivada dessa escuta é algo que supera a referência meramente estética. Parte da viagem do disco está justamente em não resolver todo o mistério, de não ser pretensioso o bastante para querer entender todas as referências e decifrar seus segredos. Resguardar um pouco do que é escondido é parte da experiência, uma experiência de vivenciar o que não é dito. E sentir na pele os sons do oculto.

(Eastern Flowers (Doğu Çiçekleri) em uma faixa: “Lotus”)

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ARTISTA: Sven Wunder

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.