Resenhas

Sven Wunder – Natura Morta

Terceiro disco do produtor sueco mantém a psicodelia como norte para criar atmosfera onírica a partir de referências ao Funk e ao Folk

 257 total views

Ano: 2021
Selo: Piano Piano Records
# Faixas: 11
Estilos: Psicodelia, Funk, Folk
Duração: 32'
Produção: Sven Wunder

Quando o sueco Sven Wunder lançou seu psicodélico disco Eastern Flowers (2019), havia pouco a se dizer sobre sua pessoa. Não por falta de palavras, mas por falta de informações. Em tempos de internet, Sven conseguiu preservar boa parte de sua vida privada, e suas músicas se tornaram as maiores e mais preciosas informações que poderíamos conseguir a seu respeito. Assim, estas informações pessoais acabaram se tornando elementos totalmente secundários perante à riqueza de sua obra – marcada por uma intensa pesquisa musical e uma produção autêntica.

No disco citado, Sven construiu uma ponte entre a música turca e a psicodelia dos anos 1970, produzindo um efeito de nostalgia “artificial”. Ouvir as composições de Sven é estar diante de um passado que nunca vivenciamos, mas certamente reconhecemos de algum lugar. E agora, em seu terceiro disco, Sven nos coloca em um outro mundo estranhamente familiar – e particularmente para os brasileiros, este mundo parece ainda mais conhecido do que outros.

Natura Morta parte das reflexões do músico sobre a arte enquanto forma de apreensão e subjetivação do mundo. O título acaba se mostrando como um jogo irônico entre a vivacidade musical explorada e a expressão “natureza morta”, utilizada pelos pintores para se referir a pinturas de elementos naturais estáticos. A capa do projeto pode direcionar o ouvinte a crer que Sven procurou produzir composições mais soturnas e melancólicas, mas na verdade sua pesquisa o levou por um caminho muito mais solar. É difícil escutar este disco e não pensar na estética psicodélica brasileira dos anos 1970, principalmente do Clube da Esquina. Parte desta sensação advém da mistura da psicodelia dos arranjos de cordas de Jazz, mas também da sonoridade construída para remeter aos ruídos de fitas antigas.

Entretanto, ainda que este nos parece apenas familiar, há uma outra série de elementos que causa uma espécie de estranhamento (benéfico) na apreciação do registro. O Funk americano ganha espaço por entre as suavidades, imprimindo uma batida forte e repleta de suingue, não apelando, porém, para o lugar comum do gênero. Sven faz inserções muito precisas destas referências, utilizando-as não pelo simples propósito da nostalgia, mas compreendendo estes toques na narrativa geral do disco. Inclusive, esta é uma palavra-chave dentro da obra de Sven Wunder. As faixas sem letras fazem com que estas canções funcionem como direcionadores de uma história sem palavras. O produtor e compositor sueco reafirma seu talento, não só como um excelente músico, mas um exímio contador de histórias.

“En Plein Air” poderia ser facilmente uma música sobre as montanhas de Minas Gerais, composta por Lô Borges e Milton Nascimento – com um arranjo de cordas moderno e, ainda assim, clássico. “Prussian Blue” é mais ágil, quase como uma trilha de filme de espiões russos dos anos 70/80, com a dose perfeita de Funk e uma aura psicodélica misteriosa. “Alla Prima” reitera o clima da natureza aberta, trazendo referências do Folk Americano bucólico e interiorana de Joni Mitchell e Anne Murray. “Barroco, Ma Non Troppo” traz o Jazz groovado mais próximo de arranjos de música barroca, e remete também a Miles Davis e sua fase elétrica dos anos 1970. Por fim, “Natura Morta (reprise)” vem com um novo arranjo para a canção homônima anterior, encerrando o registro em tons leves, suaves e que trazem a emoção à flor da pele no ouvinte – sem que uma palavra seja dita.

Novamente, Sven Wunder produz um álbum em que o grande barato é essa sensação de familiaridade a partir de um universo totalmente desconhecido. A proximidade com Clube da Esquina e Joni Mitchell podem até nos dar alguns indícios de “onde já escutamos isso”. Mas a experiência primordial de Natura Morta está justamente nesse espanto. Como se fosse um sonho, em que por mais mirabolante e distante que as coisas se apresentam, elas estão intimamente relacionadas conosco. De formas variadas e imprevisíveis.

(Natura Morta em uma faixa: “Alla Prima”)

 258 total views

ARTISTA: Sven Wunder

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.