Resenhas

Sylvan Esso – Free Love

Duo afina referências e retorna com letras existencialistas em meio a instrumentais que aliam o orgânico e o digital, o Pop e o Alternativo

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Ano: 2020
Selo: Loma Vista
# Faixas: 10
Estilos: Indie Pop, Electro Indie, Pop Alternativo, Electro Folk
Duração: 29'
Produção: Amelia Meath, Nick Sanborn e John Hill

O duo americano Sylvan Esso, formado pelo casal Amelia Meath e Nick Sanborn, ficou conhecido na última década como “Pop com conteúdo” – críticos gringos por aí até chegaram a chamar o som da dupla de “música cool para pessoas interessantes”. A realidade, contudo, é mais simples e menos pretensiosa, como eles apresentam no terceiro disco, Free Love.

Existe um mundo de referências bem delimitado por Meath, a letrista, que vem sendo trabalhado há dois álbuns – Sylvan Esso (2014) e What Now (2017) –, e chega ainda mais completo no novo registro. Para a vocalista, o mais importante é estar em movimento, como explicou em entrevista à revista The Forty Five: “Acho que é um jeito fácil de falar sobre alguém que está fisicamente envolvida em algo. Há uma razão para a humanidade querer dançar em boates ou em casamentos – existem poucas tarefas que exigem a totalidade do seu ser”.

De certa maneira, Sylvan Esso celebra a união de duas pessoas interessadas em produzir sons capazes de prender a atenção e o corpo do ouvinte, casando letras existencialistas e o mundo dos beats. Ambos artistas possuem tradição na música Folk, inclusive se conheceram quando Nick fez um remix como Made of Oak, seu antigo projeto, para a Mountain Man, a antiga banda de Amelia. Na época, a vocalista viajava o país como backing vocal de Feist, também conhecida pelo Broken Social Scene.

A dinâmica entre os dois foi se expandindo e, cada vez mais íntimos, almejam soar como uma unidade. Sanborn explicou o processo à revista Entertainment Weekly: “Free Love conseguiu sintetizar algo que a gente tentava há muito tempo: que o Sylvan Esso não soasse como duas pessoas, mas que parecesse uma única expressão”. Conforme a década avançava, o duo também refinava seu ofício, chegando até mesmo ao Grammy, com as indicações a Melhor Disco de Música Eletrônica por What Now –gramofone que foi para o Kraftwerk.

Em Free Love, o aspecto Lo-Fi da gravação em casa deu espaço para faixas ainda mais cheias de detalhes. “Ferris Wheel”, um dos destaques do álbum, conta com uma produção cuidadosa e recheada de nuances e Sanborn é capaz de equilibrar perfeitamente flautas sequenciadas, um backing vocal estilo coral adolescente e beats prontos para a pista de dança. O casal vive na cidade de Durham, no estado conservador da Carolina do Norte, e montou um estúdio no meio da natureza. Ou seja, ainda mais na nova realidade, o ato de dançar não está restrito a um espaço – como uma boate – mas em qualquer palco que lhe faça sentido, algo incentivado e exercido por Meath.

As músicas novas seguem se alternando entre orgânico e eletrônico, como no caso da delicada “Ring”, com o sample de bateria, que aparece logo nos primeiros segundos da track, alojando outras camadas no decorrer da faixa. Destacando espaços e silêncios, a mixagem é precisa e faz com o que ouvinte entre nesse movimento de preenchimento e vazio.

Uma primeira audição de Free Love pode parecer monótona, já que não há grandes explosões ou quebras – particularidades do Electropop, tão popular na última década. Mas não há dúvidas sobre a potência e a extensão vocal de Amelia, que encarna um estilo mais Indie do que ostensivo, com seus falsetes e vibratos sobressalente – o apelo de Sylvan Esso está nessa hibridez entre o Pop e o Alternativo, na atenção às minúcias e à coesão de um projeto criativo.

A primeira faixa, “What If”, funciona como uma introdução longa com um poema musicado sobre possibilidades – “Se o final fosse o começo? Então homens serão mães?”. Um spoken word sensível, que cresce conforme os segundos passam e termina com uma certeza (“she’s coming out”). O statement pode ser sobre sexualidade, pois a artista já declarou ser bissexual, ou no sentido de manter a honestidade. Na metade do trabalho, em “Free”, pensado como o fim do Lado A do vinil, o assunto é retomado com mais assertividade. Na balada calminha, ela canta: “todo mundo me pergunta: como é amar todo mundo?”. Ainda em entrevista à EW, o produtor explica: “O que Amelia fez foi reagir ao mundo tenso em que vivemos. Ela olhou para dentro e tentou lembrar de todas as vezes que amar alguém foi fácil. Free Love nos mostra abraçando a complexidade do ser humano com uma música Pop que não diminui o quão complicado é existir”.

De modo geral, a música Pop que chega ao mainstream pode soar apelativa em alguns aspectos, seja no emocional inflamado ou no entusiasmo desmedido, irreal. O que Sylvan Esso propõe é um lugar contemplativo, menos efusivo, mas, sem dúvidas, emocionante e atento.

(Free Love em uma faixa “Train”)

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ARTISTA: Sylvan Esso

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