Resenhas

Tash Sultana – Terra Firma

Australiana se abre a novas parcerias e embarca em influências que expandem a proposta do disco de estreia

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Ano: 2021
Selo: Lonely Lands
# Faixas: 14
Estilos: Alternativo, Ambient Pop, R&B
Duração: 60'
Produção: Tash Sultana

Mesmo antes da pandemia, já havia uma certa tendência de isolamento artístico. Músicos concentravam para si todas as funções do processo de produção de um disco, desde a composição até mesmo a divulgação. Particularmente, a australiana Tash Sultana enxergava nessa dinâmica uma possibilidade única de colocar seus sentimentos e pensamentos à mostra. Desde 2017, com seu EP de estreia Notion, ficou claro que concentrar-se em todas as áreas de seu trabalho (e composição) foi extremamente benéfico. Cada elemento de sua sonoridade tinha um propósito minucioso para compor a estética de Tash, um universo que permeia um humor mais calmo, andando na corda bamba entre os territórios do R&B e Ambient Music. É definitivamente uma música para refletir e meditar. E, além disso, a personalidade musical “autocentrada” – sem nenhum sentido depreciativo – de Tash também se expressa em suas performances, munidas de uma loop station (como na do Tiny Desk).

Entretanto, este estilo de vida manso não é capaz de se adequar inteiramente à dinâmica mercadológica de turnês e divulgações. Seu último disco lhe proporcionou uma experiência destoante, com exaustivas turnês – que passaram pelo Brasil durante o festival Lollapalooza 2018 – colocando apenas Tash no centro do palco, tocando todos os instrumentos. Soma-se a isso, o contexto pandêmico, o que inevitavelmente trouxe implicações a saúde mental de todos.

Para lidar com tudo isso, Tash Sultana resolveu contar com sua boa e velha música, preparando-se para um novo processo de isolamento e de reconexão com áreas de sua vida negligenciadas durante estes exaustivos anos. Essa é a ideia geral de Terra Firma, um disco que funciona como respiro para a artista diante de tudo que experimentou. Tash disse em entrevistas que precisava encontrar um espaço para “se sentir pessoa novamente”, e isso incluía não apenas a música em si, mas todos os outros elementos importantes de sua formação – como família, surfe, jardinagem etc. Assim, seu segundo álbum de estúdio ecoa as mesmas características dos antecessores. Tash experimenta pela suavidade do R&B, mas cria camadas e texturas por meio de flertes com a Ambient Music, em construções atmosféricas que vão além dos reverbs.

Ainda assim, aparentemente, aquelas turnês realmente a acertaram em cheio. É justamente aí que entra uma mudança para a forma como Tash encarava suas produções. É a primeira vez que ela se abre a colaborações externas para compor o disco. A artista convidou o músico conterrâneo Matt Corby e o produtor Dann Hume (Courtney Barnett, Amy Shark, Angus & Julia Stone) se abrindo para um diálogo com referências distintas e criando ainda mais as possibilidades de uma sonoridade naturalmente ambiciosa. O resultado é que, ao mesmo tempo que temos os mesmos elementos e timbres tipicamente da estética da Tash, as músicas criadas em Terra Firma alcançam novos voos. Aquela característica imersiva de outros discos é intensificada, com ambientes maiores, camadas mais profundas e a adição de elementos como arranjos de cordas e trompetes.

“Musk” dá conta de introduzir este novo e mais rico universo de Tash – colocando o ouvinte no centro de um groove R&B, enquanto surge um astral etéreo. “Greed” é mais pontual nos riffs de baixos, com vocais roucos nos conquistando. O músico Josh Cashman empresta sua voz para compor “Dream My Life Away”, um dos momentos mais introspectivos do disco, cuja ausência de batidas e percussões deixa o ouvinte ainda mais meditativo e à deriva. “Sweet & Dandy” imprime uma batida inclinada ao Hip Hop, misturando elementos percussivos a sintetizadores que criam sonoplastias fantásticas para a faixa. Por fim, Tash parece concretizar a sua proposta inicial de se conhecer melhor na faixa “I Am Free”, um momento catártico que define o disco por inteiro. As camadas de sons já estão tão intrinsecamente ligadas, tão interconectadas, que seria um esforço inútil isolar todas as partes – e Tash é formada por todas elas.

(Terra Firma em uma faixa: “I Am Free”)

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ARTISTA: Tash Sultana

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.