Resenhas

Tassia Reis – Outra Esfera

Segundo disco da rapper é um processo de auto-investigação, ao mesmo tempo que um manifesto

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Ano: 2016
Selo: Independente
# Faixas: 7
Estilos: Hip Hop, Trap, R&B
Duração: 29:00
Nota: 4.0
Produção: Diamantee, GROU, Tuchê e Renan Samam

Tássia Reis foi por muito tempo uma giganta escondida no Vale do Paraíba. Influenciada por grandes do Rap brasileiro e nomes da música negra gringa, a jovem compositora começou a escrever suas rimas em 2009, provocando uma explosão em tímidas aparições em refrões de MCs locais. Com o tempo e experiência de palco, uma participação especial era um espaço muito pequeno para que ela entregasse sua forte mensagem e, assim, os primeiros singles começaram a surgir e sua força quebrou as correntes do coadjuvantismo em direção à destruição de paradigmas por meio de rimas ácidas, empoderadas e extremamente sinceras. Com um primeiro EP recheado de canções fortes, como Meu RapJazz e Primavera, Tássia lança sua segunda empreitada com uma mensagem clara: há muito ainda a ser dito.

Outra Esfera é um novo passo para a obra de Tássia. Com uma produção focada em estabelecer interessantes relações entre Soul, Jazz, Hip Hop e até mesmo o Trap, a compositora monta seu mar de referências para poder nos mergulhar em sinceridades plenas. Essa, a arma mais potente de Tássia, traduz desde aflições amorosas e elementos metafísicos até questões de empoderamento negro. Assim, o disco reflete essa multiplicidade de temas, criando diferentes ambientações entoadas pela camaleônica interpretação de Tássia e auxiliado por habilidosos produtores, como Diamantee, GROU, Tuchê e Renan Samam. As batidas criadas aqui evitam cair em clichês preguiçosos e nos conduzem pelo imaginário da compositora nos contando uma história cada vez mais profunda.

Tássia anuncia esse aprofundamento nos primeiros versos de Não É Proibido, na qual ela canta “de peitos e braços abertos, mergulho no fundo/Nascida pro mundo, eu sou”, ambientada em uma batida etérea e hipnótica, como se já estivessemos na mente da rapper. Ouça Me R M X retira os reverbs da equação e nos bombardeia com versos de indignação e com baixos caprichados em alto e bom som “Eu tentei falar baixinho, mas ninguém me ouviu/Eu tentei ir com carinho e o sistema me agrediu/Então eu grito, elevo meu agudo ao infinito”.

Desapegada mistura um contrabaixo Jazz com algumas harmonias tortas de piano e assume que é avoada, mas que busca nisso o sentido para buscar o que quer. Com participação da rapper Stefanie, Da Lama / Afrontamento é a rima mais ácida do disco, com flow veloz e uma mensagem escancarada das diferenças entre classes onde os mais ricos são “sem modos no lodo/Enquanto eu, povo, me fodo”. Por fim, Perigo/Outra Esfera chega a um ponto sensível da mente de Tássia: suas dúvidas que acompanham o momento atual de sua vida e são seu principal instrumento de impulso.

Outra Esfera é um disco mais maduro com rimas mais precisas e humanas, trazendo questões próprias da rapper, bem como discursos de protesto a favor dos valores que ela leva muito a sério. Tássia usa seu disco como manifesto, mas também como processo de auto-descobrimento, onde cada faixa a aproxima de seu cerne e essência. Cada vez mais próxima de descobrir quem é, cada vez explorando esferas mais íntimas, cada vez mais descobrindo para onde a Tássia quer ir.

*(Outra Esfera em uma faixa: Da Lama / Afrontamento)**

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BOM PARA QUEM OUVE: Destiny, M.I.A, Karol Conka
ARTISTA: Tássia Reis
MARCADORES: Hip Hop, Ouça, R&B, Trap

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.