Resenhas

Tatá Aeroplano – Step Psicodélico

Músico paulista faz disco de Pop psicodélico

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Ano: 2016
Selo: Voador Discos
# Faixas: 10
Estilos: Rock Psicodélico, Rock Alternativo, Pop Psicodélico
Duração: 39:59
Nota: 3.0
Produção: Tatá Aeroplano, Dustan Gallas, Bruno Buarque e Junior Boca

Vocês sabem que o cotidiano moderno impõe várias tarefas ao pobre ser humano habitante das cidades, né? Como, por exemplo, ouvir um álbum para resenhar e ter, ao mesmo tempo, que cozinhar, varrer a casa, entre outras coisas. E, depois que o dito cujo termina, ouvir novamente, até sentir alguma segurança para poder emitir uma opinião que, em tese, vai nortear algumas pessoas e apresentar a obra para outras. Resumindo: não é uma tarefa fácil, apesar da mesma modernidade nos fazer achar que “qualquer um pode opinar sobre qualquer coisa”. Poder, pode, democraticamente falando. O lance é saber o que está dizendo. No caso de Step Psicodélico, o novo álbum do paulista Tatá Aeroplano, tal tarefa é ainda mais difícil, por um simples motivo: você simplesmente não acredita em algumas passagens instrumentais e líricas das canções. Precisa parar tudo o que está fazendo, voltar a canção e prestar ainda mais atenção. E o ciclo às vezes se prolonga indefinidamente.

A estranheza está no simples fato de que este é um disco absolutamente psicodélico. Ao ler o release, vendo Aeroplano afirmar com tanta vontade e veemência que seu trabalho é assim, que gosta de ver o som derretendo paredes, a gente pensa que é papo de hippie velho e urbanóide brasileiro, que gosta de pegar emprestados os tiques musicais do estilo e sair pelo underground adentro. Só que Tatá é mesmo assim, sua música é essencialmente desvinculada do que o planeta vem fazendo nos últimos 30, 40 anos, algo que é louvável e preocupante ao mesmo tempo. De repente você está envolvido num mundo de canções sobre noite, céu, estrelas, todas as constelações, guerreiros míticos, aventureiros, numa mistura de Terra Média com festa de DCE de universidade pública, tudo amarrado com papo de gente de humanas e exatas, todos bêbados, falando na língua do P enquanto dançam uma ciranda de protesto. Parece o último círculo do inferno, certo? Mas, de alguma forma estranha, esse cenário caótico faz sentido e apresenta bons momentos.

Em primeiro lugar, há um saudável amor pelo Rock romântico dos anos 1960 em várias passagens. É uma sucessão de canções doces com DNA que remonta a cenários com “discos da Gal” e tons com “o vermelho de Sganzerla”, construindo um habitat ideal, suspenso no tempo. Lembra muito o trabalho do finado Júpiter Maçã, mas com uma queda pela facilidade melódica e pela utópica ideia de tocar no rádio. As melodias são redondas, os arranjos têm esquisitices instrumentais, mas jogam sempre a favor da harmonia e dos refrãos Pop. Cadente, a melhor faixa do álbum, é cheia de percussões e guitarras simpáticas, que emolduram os vocais femininos. Aliás, o disco conta com participações especiais das cantoras Barbara Eugênia, Ciça Góis e Julia Valiengo, conferindo brilho a várias canções pelo álbum adentro.

Esse trio surge soberano na faixa-título, com andamento diferente, beirando o Frevo, beirando qualquer ritmo nordestino não muito identificado, brincando com palavras em inglês e a voz de Tatá, entre os registros de Jorge Mautner e Tom Zé e aquele clima de Tropicália revisitada por gente esperta, rimando “ciclovias” com “serralheria”, mas tudo bem. Em Aventureiros, Julia tem os vocais principais e a canção exibe um andamento linear bem vindo, totalmente Pop, lembrando algo dos anos 1980. O trocadilho com o título de Eu Inezito, aproveitando para lembrar da cantora paulista Inezita Barroso, morta no ano passado, é bem vindo e faz justa homenagem, conectando ainda mais o espírito da coisa com os anos 1960.

Tatá já deu as caras assinando seus discos como Jumbo Eletro, Cérebro Eletrônico e Frito Sampler, mas seu abraço à Psicodelia é permanente, constituindo um traço marcante de sua carreira. Apesar dos vários nomes, é com sua assinatura pessoal que ele consegue os resultados mais próximos de sua proposta. Indicado para doidões e malucos beleza em geral ou gente que viaja sem sair do lugar quando escuta canções como as de Aeroplano.

(Step Psicodélico em uma faixa: Cadente)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.