Teach Me Tiger – Two Sides

Estreia do duo mineiro traduz habilidade em construir sonhos humanos e verdadeiros

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Ano: 2016
Selo: La Femme Qui Roule
# Faixas: 10
Estilos: Dream Pop, Psicodelia, Trip Hop
Duração: 38:53
Nota: 3.5
Produção: Leonardo Marques

É engraçado como é comum escutar o termo Dream Pop e automaticamente imaginar a qualidade que este sonho deve ter. Os timbres etéreos, pads hipnóticos e vocais reverberados por vezes imprimem esta noção mágica e “do bem” ao gênero, remetendo àquela sensação conhecida de estar voando. Entretanto, há casos em que essas mesmas características nos levam a tecer análises mais sombrias, interpretando-as como sufocamentos e desconcertos típicos de um pesadelo. De qualquer forma, as formas opostas como são analisadas a mesma sonoridade só nos levam a pensar o quanto as bandas costumam ter essa visão bastante antagônica das coisas, procurando poucos meios termos. Mas, o duo Teach Me Tiger é uma dessas exceções, produzindo assim, um Dream Pop bastante humano.

Two Sides é claro logo em seu nome. O primeiro disco da dupla traz um trânsito livre entre dois dos vários lados da personalidade humana. É claramente um trabalho de influência Dream Pop, mas os propósitos destes sonhos talvez não sejam tão claros e esta é uma das grandes sacadas da experiência de escutá-lo. E não é como se em uma faixa tivéssemos humores mais alegres e em outras, mais tristes. Os dois componentes estão presentes e em doses complementares. Às vezes, o vocal doce de Chris Martins pode não trazer uma audição tão suave assim, bem como alguns timbres macabros de sintetizador evocam certa mansidão e até uma sensação de calma. Parte do mistério é justamente desvendar esses humores, mas, ao mesmo tempo, também somos instigados a notar as diversas percepções que temos das mesmas músicas, em momentos diferentes de nosso dia.

Here We Are é hipnótica em seus pads soturnos, compondo um peso interessante à música – não aquele do Rock, mas do peso depressivo de canções de Beach House. My Eyes trabalha com uma batida mais animada, mas a cíclica harmonia nos dá a impressão de estar voando em círculos: uma liberdade contida. Drive é sedutora, mas ao mesmo introspectiva, principalmente na escolha de timbres de orgãos repletos de delay. The One pode conter também estes acordes mais sombrios (uma escolha recorrente da banda), mas traz bem claro o lado Pop da equação, com melodias bem pegajosas. My Side rompe com o padrão Eletrônico do disco, trazendo baterias agressivas e pesadas, com construções atmosféricas e etéreas. E Let’s Get Lost lembra algumas nuances de Shoegaze, abusando do reverb e com melodias que remetem a discos de Pixies.

A estreia de Teach Me Tiger é uma construção fantástica de um sonho que a qualquer momento pode tanto tomar um rumo belo quanto sombrio. A definição de Dream Pop ganha uma conotação bem menos dicotômica por meio de um álbum misterioso e inquietante. Quem sabe o que os próximos sonhos do duo podem revelar? Só sabemos que certamente serão sonhos que vamos gostar de experimentar.

(Two Sides em uma faixa: Another Shoes)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.