Resenhas

Tears For Fears – The Tipping Point

Quase 20 anos depois do último disco de estúdio, célebre duo inglês retorna respeitando suas tradições, mas também abre espaço para referências repaginadas

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Ano: 2022
Selo: Concord
# Faixas: 10
Estilos: Synthpop, New Wave, Pop Rock
Duração: 42'
Produção: Tears for Fears, Charlton Pettus, Florian Reutter e Sacha Skarbek

Há sempre uma expectativa especial (e até doentia) dos fãs para o lançamento de discos seguidos de longos hiatos. Quando grandes artistas anunciam seus retornos, há algo como um instinto narcísico em parte do público: os fãs carregam uma ideia do que querem ouvir e, muitas vezes, essas ideias se tornam itens inegociáveis para a apreciação do disco. Não é mais o disco que o artista quer lançar, mas o disco que o fã quer ouvir. Daí a resistência de fãs saudosistas – afinal, o que está em jogo não são apenas sons, mas memórias afetivas vinculadas a estas músicas. Entretanto, o que se pode esperar do novo lançamento de um artista que significa diferentes coisas para diferentes pessoas? Eis aí a grande questão por trás do novo disco do Tears For Fears.

O célebre duo inglês atravessou as décadas impactando gerações de diferentes maneiras. Para os jovens dos anos 1980, o grupo era sinônimo de hits nas paradas de sucessos; uma banda que utilizava a tecnologia dos sintetizadores em sucessos melancólicos e dançantes. Para alguns millennials, a dupla evoca a nostalgia de uma época nunca vivida, além de ser a trilha de diferentes rádios de consultório de dentista e parte integrante de coletâneas de hinos oitentistas. Até mesmo a geração mais focada em redes sociais e memes constantes encontrou em “Mad World” algo como um hino da depressão que chegou a render vídeos virais no extinto Vine e, posteriormente, no TikTok. Sendo assim, o Tears For Fears sempre esteve presente no mundo pop e a constante relevância se tornou uma marca da habilidade e dos talentos de ambas as partes do duo, mas também apresentou um novo dilema. Como continuar a propor coisas relevantes, principalmente depois de ficar quase duas décadas sem lançar material inédito? A resposta vem na forma do sétimo disco de estúdio, um registro que procura dosar as facetas do duo e seus significados para diferentes gerações.

The Tipping Point apresenta timbres típicos de hits como “Everybody Wants To Rule The World” e “Head Over Heels” e, ao mesmo tempo, não se limita aos estereótipos de uma banda que completou 40 anos de carreira em 2021. Assim, o termo eclético poderia caber aqui para o repertorio. Mas, mesmo percorrendo caminhos diferentes, as composições criam um conjunto sólido e coeso. Não há saudosismo puro e simples, mas há o respeito às tradições dos anos 1980 nas quais a banda se fundou.

No entanto, este não é um trabalho exclusivamente feito para agradar o público. Na verdade, durante o processo de produção, a gravadora instigou o duo a colaborar com artistas mais novos, na tentativa de se aproximar de outros públicos e aumentar seu alcance comercial. Após algumas tentativas, esta ideia foi descartada e o que se seguiu foi um período intenso para os integrantes. Roland Orzabal atravessou uma fase bastante complicada em termos de saúde, seguido do falecimento de sua esposa. Já Curt Smith se frustrou tanto com as expectativas da gravadora que considerou sair da banda mais uma vez (a primeira foi quando o grupo se separou em 1991). Apesar de tudo isso, a banda decidiu seguir em frente, trabalhando em um formato que agradasse ambos os integrantes, mas que também fizesse sentido como um projeto do Tears For Fears.

“No Small Thing” abre o disco com uma proposta bem diferente dos sintetizadores dos anos 1980: trata-se uma balada folk sobre crescer, envelhecer e amadurecer – temas mais existencialistas têm grande espaço pelo repertório. “Long, Long, Long Time” é um híbrido das sonoridades melancólicas, porém sob uma estrutura de balada mais pop, algo que se aproxima de canções indie ideais para serem cantadas em coro. “My Demons”, por outro lado, é nostalgia pura – sintetizadores graves, ecos com brilho neon e a voz inconfundível de Curt Smith. “Master Plan” aponta para timbres mais modernos, e remete ainda ao indie pop do final dos anos 2000, o que pode fazer os mais saudosistas torcerem o nariz. Por fim, “Stay” é a canção definitiva de Roland Orzabal para sua esposa, um momento único e sincero que merece toda a atenção do ouvinte.

Agradando ou não fãs mais fervorosos, The Tipping Point representa um esforço louvável de aglutinar diferentes visões geracionais a respeito do Tears For Fears. O resultado é um disco feito por um duo que reconhece a pluralidade de sua audiência – e que respeita o saudosismo, mas se abre a novas possibilidades (e a novos fãs). Ainda que a década de 1980, seus maneirismos e sua identidade permaneçam sempre ali, inescapáveis.

(The Tipping Point em uma faixa: “My Demons”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.