Resenhas

Teenage Fanclub – Endless Arcade

11º disco da influente banda do Rock Alternativo discute mortalidade a partir de proposta nostálgica e, ao mesmo tempo, atual

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Ano: 2021
Selo: PeMa/Merge Records
# Faixas: 12
Estilos: Indie Rock, Rock Alternativo
Duração: 44'
Produção: Teenage Fanclub

A década de 1990 é uma das épocas mais prolíficas para a cena do Rock Alternativo. Tão rica que, por vezes, nos foge algum nome em meio à imensa quantidade de bandas surgidas e consolidadas nesse período. Nomes como Pixies, Sonic Youth, Nirvana e Pavement costumam figurar na lista de bandas mais influentes do período. Entretanto, há uma banda que sempre aparece (ou não) de forma mais tímida nessas listas e cuja relevância bate de frente com aqueles nomes citados.

O grupo escocês Teenage Fanclub certamente deixou sua marca na história da cena alternativa de uma forma sorrateira, porém impactante. Com uma sonoridade que se transformou ao longo dos anos, a banda foi colocada como uma das melhores do mundo por Kurt Cobain. Sua influência ainda ecoa pelos mais diversos cantos do Indie Rock moderno, rendendo-lhe tributos e regravações por outros artistas de seus discos mais famosos, como a versão de Bandwagonesqu, de Ben Gibbard (Death Cab For Cutie), em 2017. Uma influência indiscutível e que aconteceu quase que de forma subterrânea e isso se relaciona diretamente com a evolução de sua sonoridade.

O grupo parte de um zeitgeist influenciado por bandas como Sonic Youth, porém acrescidos de aspectos mais melódicos de bandas como Pixies. A partir disso, a distorção começou a aparecer de forma um tanto secundária em suas composições, dando espaço para que arranjos vocais mais elaborados e uma psicodelia leve pudessem entrar em cena. Tudo isso permeado pela urgência da juventude expressa nas letras de seus discos – não à toa o grupo tem o nome que tem. A partir da década de 2000, a banda passou a lançar discos mais espaçados, sempre se atentando a aspectos da produção e investindo um bom tempo na elaboração de obras coesas e recheadas de uma nostalgia indiscutível. Há alguns anos, Gerard Love, membro fundador, saiu da banda, deixando alguns fãs com uma sensação de fragilidade no ar. Em seu lugar, entrou o colaborador de longa data Euros Childs, integrante da banda psicodélica Gorky ‘s Zygotic Mynci. Soma-se isso uma dinâmica de gravação e produção em meio a um contexto pandêmico e pronto! O novo disco da banda, em quase cinco anos, estava finalizado.

Apesar das constantes mudanças de som e de formação do grupo, Endless Arcade é um disco que se mantém fiel à sonoridade construída até aqui. Não é um momento de experimentações mirabolantes, ou se procurar se fundir a novos gêneros. Teenage Fanclub ainda tem muito a dizer sob estes moldes nostálgicos do Indie Rock. Há uma suavidade confortante na forma como os arranjos são feitos, apelando sempre para acordes tipicamente Pop e imprimindo batidas dançantes. Somado a isso, a influência do Rock dos anos 1990 dá às faixas uma energia contagiante, por mais que, de forma geral, sejam canções mais amenas. Este sempre foi um dos traços mais autênticos da sonoridade de Teenage Fanclub: envolver e agitar o ouvinte a partir de um som que foge do peso do Rock. Dessa forma, Endless Arcade também é uma forma de reafirmar uma proposta que, apesar de ter sido construída em um período de 20 anos, permanece extremamente atual.

Ainda que a sonoridade do disco tenha se mantido parecida com registros anteriores, o disco aborda um tema sensível em tempos atuais. Em entrevista para a Riff Magazine, os membros Norman Blake e Raymond McGinley afirmam que o disco trata sobre o tema da mortalidade e que esse “arcade infinito” é uma tentativa de expressar a sensação de impotência perante a morte. O contexto pandêmico parece ter importante influência na escolha desse tema. Os integrantes estão quase alcançando a marca dos 60 anos de idade e a forma que têm de colocar para fora suas angústias e pensamentos é reafirmando a construção de sua história. É por isso que o disco soa tão atual e nostálgico ao mesmo tempo. Pois reflete um processo criativo de quase 30 anos e que ainda permanece em construção, frente às adversidades da contemporaneidade. Um disco sobre processos.

(Endless Arcade em uma faixa “I’m More Inclined”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.