Resenhas

Tegan and Sara – Love You to Death

Irmãs canadenses esbanjam categoria em álbum assumidamente Pop

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Ano: 2016
Selo: Warner
# Faixas: 10
Estilos: Pop Alternativo, Pop, Pop Rock
Duração: 31:27
Nota: 4.0
Produção: Greg Kurstin

Rapaz, um disco de Pop! E mais: um disco de Pop dourado, livre deste padrão herdado do Hip Hop e da Eletrônica, ambos em suas facetas menos inspiradas e diluídas! Nem lembrava mais da sensação de ouvir dez canções em pouco mais de meia hora, todas redondíssimas, com primeira estrofe, refrão, segunda estrofe, repete refrão, a fórmula mágica que fundiria a cuca de gente como Mozart e Beethoven, tamanha a eficácia melódica e a capacidade de arrebatar multidões ao redor do planeta. As gêmeas, outrora promessas da cena Folk independente de Calgary, Canadá, há alguns anos resolveram se aventurar nas veredas do Pop perfeito e demoraram algum tempo para lançar um álbum que fizesse jus a esta guinada estética que, lá atrás, custou-lhes um pedaço do público que haviam conquistado logo no início da carreira. Ouvindo o resultado deste luminoso Love You To Death, sentencio que a escolha de Tegan and Sara foi acertada.

Tal mudança de direção se deu em 2013, quando as irmãs gêmeas chamaram o produtor Greg Kurstin, que já tinha pilotado estúdios para gente como Lily Allen e Kelly Clarkson, para dar as cartas em seu álbum Heartthrob, responsável por esta nova proposta ser apresentada ao mundo. As meninas já vinham ensaiando um abraço ao Pop há mais tempo, mas ainda resvalavam em formas alternativas e cabeçudas demais, o que prejudicava sua chegada a um maior público. É bom que fique claro: as irmãs são excelentes cantoras e compositoras e, quando dizem que vão abraçar o Pop ou se enveredar por este caminho, elas estão propondo uma música aparentemente fácil, mas que passa longe do simplismo monocórdio que vemos nas paradas de sucesso. E mais: a temática também vai longe do sexismo vazio e imediatista que vemos hoje nos holofotes. Sendo assim, não temos composições desperdiçadas ou uso ostensivo de recursos de estúdio para limpar ou melhorar as vozes das moças, portanto, nada de Autotune ou timbres esganiçados por aqui.

Boyfriend, o primeiro single, é irresistível. O versinho adolescente-consciente fala tudo sobre a indefinição sentimental: “You treat me like your boyfriend, but you trust me like if I’d your very best friend”. A simplicidade Pop a qual me refiro é esta: desconcertante, parecendo óbvia, mas capaz de dar o recado em uma frase. Além disso, o tal invólucro musical é de primeira categoria. A fonte de inspiração é o fim dos anos 1980, com a produção polida dos estúdios da época, com muito uso de teclados, mais como ferramentas melódicas do que como instrumentos preponderantes. That Girl é outra pequena pérola dançante, mas não tanto, com angústia e ressentimento por todos os cantos. Faint Of Heart é moderna como a época pede, mas guarda polimento e musicalidade de sobra, com nuances e alternâncias entre andamentos lentos e rapidinhos, tudo bem comoventemente bem feito.

Dying To Know segue esta mesma linha de canção rapidinha-mas-nem-tanto, com apuro no trato dos bons vocais da dupla, bem colocados por todo o percurso da canção. Stop Desire tem batida aerodinâmica perfeita e 3:18 de duração, o tempo exato para fisgar o ouvinte e estampar um sorrisão em seu rosto. White Knuckles é uma semi-balada, com clima que lembra algum clássico perdido da dupla sueca Roxette, enquanto 100x é uma balada em sua totalidade, bela, dramática na medida, sofrida e levada quase a voz e teclados, no ponto em termos de interpretação. BWU é outra canção com batida aerodinâmica perfeita, típica canção feminina, doce, quase frágil, mas cheia de intenção e profundidade. Novamente a performance vocal da dupla é o ponto alto da gravação. U-Turn é pura ambiência Pop oitentista, Technopop na medida, com algum elemento dançante no todo, levemente cafona, cheia de belezuras ocultas. O fim com Hang On To The Night é outra criação lenta e Pop até a medula. Sintetizadores fornecem o veludo para as irmãs passearem com classe e desenvoltura neste terreno movediço para tantos artistas.

Love You to Death não faria feio numa parada de sucessos de 1987. E este é o mais sincero e justo elogio que o álbum merece. Parabéns aos envolvidos por teimarem em resgatar uma fórmula Pop tão musical, interessante e cheia de possibilidades, sem abrir mão dos preceitos básicos, mínimos da ourivesaria Pop. Belo disco.

(Love You to Death em uma canção: Stop Desire)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.