Resenhas

Tetine – Animal Numeral

Com postura insubmissa e mood “trevoso”, o duo de brasileiros radicados em Londres compôs um registro que nos reconecta a importância de expressar-se sem medo

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Ano: 2019
Selo: Slum Dunk
# Faixas: 11
Estilos: Eletrônica, IDM, Experimental, Synthpop
Duração: 56'
Produção: Bruno Verner e Eliete Mejorado

Eliete Mejorado e Bruno Vernier trabalham juntos há 20 anos e foi ao mergulharem no projeto Tetine que a dupla encontrou seu próprio vocabulário musical e conseguiu definir uma estética para chamar de sua. Misturando o gótico com ritmos de pista e certa insubordinação política, eles lançaram em outubro um novo disco com onze faixas inéditas. Todas elas ambientadas nesse cenário dark-distópico. Para se ter uma noção, coube no LP até uma releitura de “Partido Alto” na faixa que dá título ao disco “Animal Numeral” com voz processada e novos versos: “Deixa a poeira passar/ Deixe esse samba esticar, deixa eu entrar/ Deixa a poeira assentar pro animal numeral”.

Segundo os autores desse registro, ele é um disco de “Synthpop lírico”. Isso se traduz nas experimentações profundas com Spoken Word em versos que politizados que falam de problemas sociais e perspectivas de terceiro mundo. Desde 1995, os artistas brasileiros estão radicados em Londres. É na capital da Inglaterra que o duo solidificou as suas produções enquanto, paralelamente, tocavam um programa de rádio sobre músicas obscuras que pilulavam entre suas intensas pesquisas. Bruno, aliás, dedicou sua tese de doutorado ao Pós-punk.

Tudo isso para dizer que a música eletrônica de Tetine tem muito mais camadas do que o típico batidão pré-formatado para as pistas. A dupla combina sua postura combativa a um experimentalismo intrínseco a sua maneira de pensar, entender, perceber e compor música. No passado, por exemplo, no começo dos anos 2000, ficaram conhecidos por suas releituras do Funk carioca em versão “trevosa”. É com essa mesma inclinação ao mundo dark e a vontade de testar novos sons que eles contam sobre o que viveram fora do país durante todos esses anos neste LP. Seu som parte dessa mistura “clandestina”. Por serem de fora, são estranhos lá. Por ficarem tanto tempo longe, também estranham o que acontece por aqui. Desse olhar curioso, criam agora um terceiro espaço, agora híbrido, uma espécie de não-lugar: o do não pertencimento.

O cenário que eles desenham no disco é futurista sem cair no fetiche de futuro. Ou seja, o futuro como ele possivelmente vai ser: duro, áspero, rarefeito. Assim, eles projetam suas letras catastrofistas sobre timbres esquisitos e beats quebrados que ajudar a definir o mood do álbum. “Konkret Dance” é uma boa representante desse sentimento construído pela dupla ao passo que também funciona como um mantra. Correndo sempre pelo alternativo e pelo underground, Animal Numeral também celebra a resistência e resiliência da dupla que persiste criando em meio ao caos urbano.

Eles também descrevem o trabalho como “poética tropikal mutante punk-funk”. O humor característico também faz parte dessa identidade. Brincam sobre sonhos e querer dar certo lá fora – “Dream Baby Dream”– ou sair da cidade para tentar a vida em outro lugar –“Hey Bandido”.  Conectados com o zeitgeist cultural atual, religam a história da dupla com urgência, aos desabafos musicados por beats e sintetizadores. Um novo capítulo para essa investigação estética, que começou no início dos anos 1990 e permanece atento a necessidade – cada vez mais fundamental – de se expressar sem medo.

(Animal Numeral em uma música: “Why Bandido”)

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