Resenhas

The 1975 – Notes On a Conditional Form

Com diferentes propostas, influências e temáticas espalhadas em 80 minutos e 22 faixas, novo álbum encontra equilíbrio em meio à dispersão e guarda tesouros escondidos

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Ano: 2020
Selo: Dirty Hit
# Faixas: 22
Estilos: Indie Rock, Electropop
Duração: 80'
Produção: George Daniel, Matthew Healy, Jonathan Gilmore

Quem se dedicar aos 80 minutos do quarto disco da banda inglesa The 1975 pode ter uma experiência surpreendente. Não é um álbum linear, seja na duração das músicas, na viagem pelos diferentes gêneros (Pop, Rock, Ambient) e ou nas temáticas abordadas. As letras do vocalista Matt Healy pulam, sem cerimônia, por diferentes assuntos e vão de saúde mental a relacionamentos online.

A produção de Notes On a Conditional Form é assinada pela dupla George Daniel e Matt Healy, com inserções do engenheiro de som Jonathan Gilmore, que trabalha com o duo desde os primeiros lançamentos da banda. Ele também colabora com outros (e variados) nomes famosos da música britânica da última década: os representantes do Folk Jake Bugg e Ben Howard, as bandas de Rock Wolf Alice e Snow Patrol e, mais recentemente, a cantora Pop Rina Sawayama.

Os fãs e boa parte da crítica internacional enxergam o The 1975 como a banda que conseguiu traduzir o sentimento da modernidade acelerada em música. No hit “Love It If We Made It”, do aclamado A Brief Inquiry Into Online Relationships (2018), o vocalista proclama: “modernity has failed on us” (a modernidade falhou). Já na primeira música do novo trabalho, “The 1975”, a jovem ativista Greta Thunberg convida os ouvintes para uma batalha civilizatória: “So, we can no longer save the world by playing by the rules / Because the rules have to be changed / Everything needs to change, and it has to start today / So, everyone out there, it is now time for civil disobedience / It is time to rebel” (Não podemos salvar o mundo pelas regras porque elas mudaram. Tudo precisa mudar e precisa começar hoje. Todo mundo: agora é hora de desobediência civil, é hora de nos revoltarmos). 

Nos últimos anos, o grupo se envolveu em ativismo, de causas ambientais a lutas pela equidade de gênero – o vocalista declarou que a banda apenas participará de festivais com escalações 50/50. Quando aceitaram o prêmio de Melhor Banda Britânica, no Brit Awards em 2019, usaram o espaço de agradecimento para citar a jornalista Laura Snapes, editora de música do The Guardian. “Atos misóginos são examinados em busca de nuances e defendidos como traços de artistas difíceis. Enquanto as mulheres são tratadas como histéricas que não entendem arte”.  A frase veio de um artigo da autora sobre o “caso Ryan Adams”, no qual ela também expõe o comportamento medíocre de nomes como Sun Kill Moon e Ariel Pink.

Em geral, a memória da cena Indie parece ser muito curta, perdoando quem sistematicamente erra com o público. No próprio NOACF há um verso que cita nominalmente um caso de assédio. Em “The Birthday Party”, lançada em fevereiro, Healy canta: “They were gonna go to the Pinegrove show / They didn’t know about the weird stuff (Eles iam no show do Pinegrove / Não sabiam sobre as coisas esquisitas). (Contextualizando: Pinegrove é um projeto Indie Folk do músico americano Evan Stephens Hall. Em 2017, Hall publica no Facebook um texto reconhecendo seu próprio comportamento tóxico: “Disse que poderia sentir quem no público estaria interessada em dormir comigo só pelo olhar delas me vendo tocar”. Eis que passados pouquíssimo tempo, em janeiro de 2020, Pinegrove lança novo álbum com artigo na Pitchfork e texto na New Yorker, que fala sobre o “comeback complicado”.)

Em meio a tantas camadas e informações construindo o disco, surge uma questão que parece ser simples: no mundo digital, onde você escuta música, por que não passar para a próxima faixa? A internet colabora para o sentimento de dinamismo, já que as coisas funcionam em um tempo muito mais acelerado online. Essa perspectiva também se relaciona à maneira de encarar a audição do disco The 1975 – ele passa por tantos altos e baixos emocionais, que é possível escolher o mood desejado. Imagine seu navegador com mil abas abertas: em uma está tocando Lil Peep, nas outras têm Brian Eno e Nine Inch Nails.

A arte de Matt Healy consiste em dialogar com todas essas referências. Ele disse em entrevista  à Pitchfork que assiste a algo na Netflix e diz “isso é a melhor coisa que já vi. Próximo?”. O tempo urge e Healy não descansa. Em parceria com a revista The Face, lançou um podcast chamado “In Conversation”, no qua bate um papo com seus ídolos musicais. Stevie Nicks, Kim Gordon, Steve Reich, Conor Oberst, Mike Kinsella, Bobby Gillespie, são alguns deles.

Caso não tenha gostado de uma das faixas de NOACF, você pode, com toda certeza, passar para próxima – e gostar. São 22 músicas que nasceram desse exercício criativo, que alterna influências e temas. O trabalho, lapidado ao longo de 19 meses, em mais de 10 estúdios diferentes, conta com colaboradores como as cantoras Phoebe Bridgers e fka twigs, o DJ jamaicano Cutty Ranks e até mesmo o pai do vocalista, o ator Tim Healy. Antes do lançamento oficial, o grupo soltou oito singles, que construíram a antecipação em cima do seu lançamento

O volume grande de faixas não torna o trabalho inconsistente, muito pelo contrário, e comprova, mais uma vez, como Healy é capaz de escrever hits – sempre há pelo menos uma grande canção Pop dançante em cada disco da banda. A do novo álbum é a “If You’re Too Shy (Let Me Know)”, uma ode ao Brit Pop, com direito a grave marcado e solo de saxofone. A faixa ganhou vozes adicionais da cantora fka twigs, que também participa da eletrônica “What Should I Say”, de beats sutis reverberando os sons de Caribou, Mura Masa e Cashmere Cat.

A banda segue entregando canções contagiantes que ganham as pistas de festas Indie ao redor do mundo, como o fez em “Chocolate” e “Girls”, de The 1975 (2013), “The Sound”, de I Like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It (2016), ou “It’s Not Living (If It’s Now With You)”, de A Brief Inquiry into Online Relationships (2018). Afinal, canções românticas melosas com refrão repetitivo também são bem-vindas no repertório. Aqui, destaca-se a mistura elaborada de “Tonight (I Wish I Was Your Boy)”, que conta com samples de “Just My Imagination (Running Away With Me)”, do The Temptations, e “Say Goodbye”, de Hiroshi Satoh.

Entretanto, a banda parece querer deixar claro que pode ir além. O mergulho em diferentes sonoridades pode ser raso, como no caso isolado do clima caótico de “People”, com vozes gritadas e riffs sujos. Em outros momentos, dedicam-se a explorar a sonoridade Indie Folk, como na lentinha “The Birthday Party”, na otimista-romântica “Me & You Together Song” ou na reflexiva “Playing On my Mind”. Dão um pulo além no gênero ao escalarem a cantora e compositora Phoebe Bridgers, uma das grandes expoentes do Folk Rock americano, para um feat na melancólica “Jesus Christ 2005 God Bless America”.

O disco brilha em momentos específicos, que podem ser de difícil acesso, devido ao número de faixas – quantos lançamentos atuais que atingem o grande público passam de 1h de duração? O Indie com guitarras marcadas ainda resiste no novo trabalho em faixas como “Then Because She Goes” ou “Roadkill”, mas, no contexto geral, a banda deixou a sonoridade Rock de lado em alguns instantes. Por outro lado, o legado da cena clubber britânica dos anos 1990 se faz presente. Aproximando-se do mundo dos beats, das vozes processadas e dos clubbers, NOACF tem algumas joias escondidas. Uma das mais interessantes, “I Think There’s Something You Should Know” traz batidas de House Music, com versos sobre Síndrome do Impostor. “Por favor, me ignore, estou sentindo pena de mim mesmo/ Me sentindo como outra pessoa”. Há ainda uma clara influência de diferentes fases da carreira do Kanye West em “Nothing Revealed / Everything Denied”. Favorita do produtor George Daniel, a meditativa e instrumental “Having no Head” é a sua forma de “statement” no registro. O lado da produção também aparece em outras tracks sem vocal, como “The End (Music For Car)” e “Streaming”, e o meio termo, quando os mundos se encontram, tem seu ápice em “Bagsy Not In Net”, cuja orquestra sampleia de “Sailing”(1979) de Christopher Cross.

Propositalmente irregular e disperso, NOACF pode passar a primeira impressão de um disco sem grandes emoções, mas é nessa subida e descida de vibrações que o grupo consegue criar um equilíbrio autêntico. E o trabalho prospera nos momentos de intimidade, guardados para o final. Na canção voz e piano “Don’t Worry”, Healy divide os vocais com o pai, que escreveu a acolhedora letra quando o filho tinha dois anos de idade. Um recado reconfortante aos fãs com inegável forte apelo emocional. Da mesma forma, a balada “Guys” encerra o disco com uma declaração de amor à história de amizade entre os integrantes. “Foi a melhor coisa que já aconteceu/ Sim, no momento em que começamos a banda”. O tipo de statement que ninguém duvida.

(Notes On a Conditional Form em uma faixa: “I Think There’s Something You Should Know”)

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ARTISTA: The 1975

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