Resenhas

The Anchoress – The Art of Losing

Catherine Anne Davies percorre o experimental e o tradicional para criar meditação poderosa a respeito do luto

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Ano: 2021
Selo: Kscope
# Faixas: 14
Estilos: Pop Alternativo, Shoegaze, Chamber Pop
Duração: 53'
Produção: Catherine Anne Davies

Não existem formas corretas ou adequadas de se experienciar um luto, mas uma coisa é certa: não é um processo fácil ou suave. Apesar de haver um senso comum a respeito das fases do luto, a particularidade de cada processo subjetivo é o que torna esta experiência extremamente árdua – ela é feita sob medida para cada um de nós, a partir das vivências e dos significados atribuídos a pessoa que perdemos. Uma das formas pelas quais artistas encontram caminhos para elaborar este sentimento é o da sublimação pela música. Ou seja, dar vazão e forma aos sentimentos que, em um primeiro momento, são confusos e difusos.

Assim, a particularidade de cada luto, também reflete na autenticidade de cada de expressão musical derivada, evidenciando ainda mais os diferentes lutos que existem entre as diferentes pessoas. Para Catherine Anne Davies, o luto é um processo muito rico e, por isso, ela resolveu colocá-lo como protagonista de seu novo trabalho sob o nome The Anchoress. Há uma ampliação da ideia de luto enquanto processo – para ela, a perda é, também, uma arte.

Catherine Anne Davies tem feito música há muito tempo, sob diversos nomes e em colaboração com muitos artistas. Nascida no País de Gales e criada na Inglaterra, suas influências vão de Beatles a Manic Street Preachers, que já participou de vários projetos da artista. Beatles dá uma dica boa sobre como a sua sonoridade se constrói, revelando um aspecto bastante inventivo ao construir suas canções. Catherine nunca parece pegar um caminho mais óbvio e sempre opta por rotas alternativas, timbres inusitados e atmosferas que entram em embate com o que a letra diz.

Mas não é apenas do experimentalismo que ela vive. Catherine não abre mão da estrutura típica de uma canção, no melhor estilo verso-ponte-refrão). O que sobressai é justamente sua postura de equilibrista entre estes dois aspectos: o experimental e o tradicional. Nunca estamos totalmente confortáveis em nenhum dos dois, e é justamente essa característica de não-permanência e de dizer o óbvio por meio do não-óbvio que Catherine coloca no mundo suas impressões sobre o luto e a perda.

Portanto, se você acha que The Art of Losing é um disco downtempo com canções melodramáticas, você acertou apenas uma parte da equação de Catherine. Em entrevista a NME, a artista diz que a ideia deste disco era justamente falar do processo de luto sem apelar para os estereótipos da coisa. A busca era pela sensação do giro caótico que se realiza quando passamos pela perda, que quebra nossa percepção de nós mesmos. Catherine não usa para isso timbres distorcidos ou qualquer coisa que se possa assimilar ao caos de uma maneira direta.

A sensação de descontrole vem justamente do jogo de não-pertencimento que ela propõe durante todo o disco. Nos arranjos, somos submetidos a um conhecido acolhimento, mas os timbres e sons escolhidos para florear a canção, parecem sempre estar fora de lugar. Durante canções lentas, somos submetidos a timbres mais agressivos, e mesmo as mais rápidas parecem ter alguma coisa suave lá que, a princípio, não deveria estar lá. Este jogo, de colocar elementos menos óbvios em determinados contextos, é uma das marcas pontuais da estética de The Anchoress.

Para passar por tudo isso, Catherine nos conforta primeiro com uma canção mais melancólica: a faixa introdutória “Moon Rise (Prelude)”. Em seguida, “Show Your Face” nos coloca no centro do jogo do incômodo, em uma canção animada e inspirada na New Wave gótica dos 80/90, porém com timbres mais estridentes, quase Shoegaze. Mesmo a belíssima peça de piano e violoncelo “All Shall Be Well” conta com uma camada sutil de vozes ao fundo que nos deixa inquietos, achando que em qualquer momento algo irá acontecer – uma metáfora de paranoia muito eficaz. “The Heart Is a Lonesome Hunter” mantém os arranjos clássicos, ao mesmo tempo que faz inserções pontuais de guitarras fantasmagóricas criando um contexto acolhedor e estranho ao mesmo tempo. “My Confessor” é catarse pura, talvez a faixa mais caótica do disco, que ainda assim consegue espremer junto do caos uma sensação leve e melodiosa – algo entre Evanescence e Lush. Da mesma forma que começou, Catherine apela para uma simplicidade nos arranjos em “Moon (An End)”, faixa que poupa o ouvinte da imprevisibilidade, aceitando a perda e acolhendo-nos.

Este não é um disco fácil de ser atravessado, mas a recompensa transforma o ouvinte ao final da audição. Ao invés de apenas falar nas letras sobre as perdas que experienciou, Catherine faz questão de que você, ao ouvir o disco, sinta esta desorganização latente em sua mente. Sempre parece que há algo incomodando a gente, algo fora do lugar. Mas é neste incômodo que o disco constrói o alicerce do processo de elaboração do luto: a percepção de que estamos totalmente embaralhados e à mercê de sentimentos antagônicos. Esta é a matéria-prima de The Art of Losing.

(The Art of Losing em uma faixa: “The Heart Is a Lonesome Hunter”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.