Resenhas

The Armed – ULTRAPOP

Banda americana usa, de maneira surpreendente, as possibilidades do Pop para amplificar sua sonoridade intensa e explosiva

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Ano: 2021
Selo: Sargent House
# Faixas: 12
Estilos: Post-Hardcore, Black Metal, Experimental
Duração: 40'
Produção: Dan Greene e Ben Chisholm

Foi-se o tempo em que o Pop era considerado algo engessado e pré-fabricado. A investigação dos processos criativos e a evolução do gênero mostram como é complexa sua construção – permitindo a fusão com diversas expressões e uma reinvenção constante. Tal qual sua produção, o escopo sentimental que abrange as composições Pop também é complexo de diversas maneiras. Não é apenas uma música de entretenimento supérflua. É matéria de investigação emocional – música para chorar, rir, se emocionar, gritar, ter medo, se apaixonar. É justamente essa amplitude emocional que resulta em um instrumento muito eficaz para entregar emoções. E, particularmente no caso da banda The Armed, o Pop funciona como um catalisador de sentimentos, proporcionando um voo mais alto de uma sonoridade já explosiva por natureza própria.

Falar sobre The Armed é curioso, pois o anonimato dos integrantes é algo que acompanha a história da banda desde seu início. Em tempos de internet, é relativamente fácil descobrir a identidade de alguns membros, mas o mais interessante é que a formação da banda muda constantemente. Basicamente, qualquer pessoa que já tenha colaborado em maior ou menor grau, já é um integrante da banda. Dessa forma, saber precisamente qual a formação do grupo em determinado momento é uma tarefa um pouco mais trabalhosa, visto que os integrantes contratavam atores para aparecer nas fotos de imprensa.

Toda esta dinâmica de constante mudança, misturada a uma dose de mistério é algo definitivo para a construção da sonoridade do grupo: sempre em movimento e produzida de uma forma que agrega diferentes elementos em prol de uma catarse explosiva. Há elementos de Post-Hardcore, Black Metal, Punk, todos fundidos em uma grande rebentação. Agora, o Pop ganha espaço entre gêneros – uma mistura que poderia ser impensável em outros contextos, mas que se mostra totalmente possível em meio à dinâmica criativa da banda.

O próprio nome do registro já evidencia a importância do Pop para o disco. Ou melhor dizendo, o ULTRAPOP. Neste álbum, ele vem representado por meio de arranjos mais acessíveis e melodias mais inteligentes e menos guturais. A banda enxerga no Pop aquela qualidade da universalidade dos sentimentos e, por isso, ao ouvirmos o registro, somos submetidos a tantas sensações que fica difícil nomear o que estamos sentindo. No mesmo espaço em que ocupam as guitarras distorcidas do Post-Hardcore, há uma melodia suave, quase Indie, nos conduzindo para outros caminhos. As baterias rápidas do Metal complementam as ambientações etéreas dos sintetizadores. Até mesmo quando todos os instrumentos estão condensados em uma mesma e gigante parede sonora, nós conseguimos nos guiar por um vocal distante que lembra um pouco os primeiros discos do movimento Shoegaze.

A faixa-título abre o registro compondo um cenário menos agressivo e acolhedor, repleto de sintetizadores da Ambient Music e já imprimindo melodias acessíveis ao ouvinte. Por outro lado, “MASUNAGA VAPORS” é urgente em exibir referências de Metal e Hardcore, a partir de uma percussão ágil e extrema. “AN ITERATION” é um meio termo preciso desses dois elementos – trazendo peso do Rock e melodias Pop mais contemporâneas (e gritadas). “FAITH IN MEDICATION” é surpreendente em sua abordagem, trazenda a mesma velocidade do Metal, mas o faz tão rápido que praticamente cria uma textura feita de caos. “BAD SELECTION” flerta com o Rock Alternativo dos 2000/2010, evocando referências de Deftones e Deafheaven. Para encerrar, a banda convidou Mark Lanegan para diminuir a velocidade e flertar com a Glitch Music em “THE MUSIC BECOMES A SKULL”.

De fato, é um disco pesado. A influência dos gêneros e subgêneros do Rock imprime um peso a partir dos arranjos. Mas é curioso que parte dessa característica venha também pela mistura ousada e extrema de elementos considerados opostos. Quantas vezes o Pop não é colocado como antagonista do Rock? Em ULTRAPOP eles ocupam o mesmo espaço. E faz sentido que o álbum soe assim, pois fica ainda mais evidente o quanto o grupo deseja comunicar. Apenas uma sonoridade tão inominável poderia dar conta de sentimentos que, mesmo fora da música, temos tanta dificuldade de expressar. Um trabalho que nos purifica por dentro, transbordando os excessos para fora.

(ULTRAPOP em uma faixa: “AN ITERATION”)

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ARTISTA: The Armed

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.