Resenhas

The Avalanches – We Will Always Love You

Com colaborações que vão de Leon Bridges e MGMT a Mick Jones e Blood Orange, duo australiano continua musicalmente rico e imprevisível

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Ano: 2020
Selo: Modular Recordings Pty Limited
# Faixas: 25
Estilos: Disco, Indie
Duração: 71'
Produção: The Avalanches

É muito interessante quando uma obra que não se propõe a ser metalinguística te convida a pensar sobre o formato no qual foi feita. No caso de We Will Always Love You, a primeira audição já desperta grande curiosidade sobre as escolhas que o duo australiano The Avalanches fez para o álbum – seja pelo número de faixas, ou pela enorme quantidade de colaboradores, por exemplo. Mas há uma questão ainda maior que o disco levanta naturalmente, e ela é sobre sua própria existência.

We Will Always Love You é o terceiro álbum da dupla em 20 anos, dado curioso em qualquer discografia, mas ainda mais se levarmos em consideração a grande aceitação – pela crítica e pelos ouvintes – que o trabalho de estreia (Since I Left You, 2000) e seu sucessor (Wildflower, 2016) receberam. Para além dos longos intervalos (quatro anos, ainda que muito menor que 16, ainda é bastante tempo entre discos), é interessante pensar como o lançamento acontece não só durante uma pandemia, mas em uma época quando muito se discute sobre a relevância do formato long play.

Aos moldes de seus dois antecessores, o álbum intercala músicas de duração convencional, de em média quatro minutos, com pequenas faixas que podem durar um minuto e pouco ou mesmo poucos segundos – o que poderia fazer ainda menos sentido na tal “era do streaming”, já que essas últimas nunca entrariam em playlists. Mas é justamente ao nos perguntarmos por que elas existem dentro da obra que somos levados a considerar o que faz um disco ter seu lançamento justificado como tal, seja em 2020 ou em qualquer outra época.

Neste caso, há um conceito criativo que amarra todas as faixas: Todas foram feitas utilizando como base samples de músicos já falecidos. É uma dinâmica poética interessante para fazer com que eles ressurjam não como “fantasmas” que pairam sobre novas criações, mas como uma herança que se mantém viva através do campo imaterial, o ar por onde o som se propaga. Com isso, The Avalanches promove uma grande celebração de estar vivo hoje (o que é algo muito próprio de um ano de pandemia).

Se em toda festa há convidados, o duo não economizou na hora de enviar os convites e trouxe nomes mais do que ilustres para as colaborações: Leon Bridges e MGMT, por exemplo, dividem espaço com lendas da geração anterior, como Vashti Bunyan e Mick Jones (da banda The Clash). Alguns deles são vistos em seu território de costume (como Blood Orange na balada de batidas bem demarcadas que dá nome ao disco, Jamie xx guia Neneh Cherry e CLYPSO em “Wherever You Go”, e Tricky está presente duas vezes em músicas com sua cara), Perry Farrell (Jane’s Addiction) está irreconhecível na ambientação Disco/NeoSoul de “Oh The Sunn!” e Rivers Cuomo (Weezer) teve a sorte de dividir com Pink Siifu a simpatissíssima e Pop “Running Red Lights”.

Essas duas últimas estabelecem uma das principais marcas de We Will Always Love You, a das muitas surpresas ao longo de seu repertório. Isso tem a ver com as muitas vinhetas, que, além de trazerem gente como Karen O e Orono Noguchi (Superorganism), ajudam a guiar a audição entre as diversas sonoridades presentes no disco. Sem saber se a próxima faixa será carregada no Hip Hop (“Take Care in Your Dreaming”), no Pop à la Gorillaz (“We Go On”) ou em um Indie Psicodélico (“Gold Sky”, com Kurt Vile), o ouvinte logo entende, e aceita, que a única linearidade da obra – além de sua alta qualidade – é a certeza de logo ser surpreendido novamente.

Não seria estranho se alguém apontasse que esse formato faz com que We Will Always Love You se pareça com uma enorme playlist amparada por algumas intervenções de curta duração. Pode até ser que seja esse o caso. Mas, em uma época em que muitos se recusam a ouvir uma obra inteira, The Avalanches nos força a repetir aquilo que já dissemos tantas vezes: além de um conceito bem desenvolvido e do apuro técnico de sua produção, o que justifica um disco de sua concepção à audição é ele trazer consigo uma reunião de músicas boas – e a deste aqui impressiona em qualquer replay.

(We Will Always Love You em uma faixa: “We Go On”)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.