Resenhas

The Avalanches – Wildflower

Grupo australiano volta depois de 16 anos com disco de inéditas

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Ano: 2016
Selo: XL
# Faixas: 21
Estilos: Hip Hop, Rock Alternativo, Eletrônico
Duração: 59:21
Nota: 4.5
Produção: The Avalanches

Foram 16 anos de espera. Ninguém – banda e público – poderia pensar que um novo trabalho de The Avalanches demoraria tanto tempo para ver as prateleiras do mundo. Quando o grupo lançou seu primeiro disco, o épico Since I Left You, ainda havia World Trade Center e o máximo de avanço que o telefone celular proporcionava era a mensagem SMS. Não podemos, portanto, colocar este novíssimo Wildflower na mesma perspectiva da estreia, a menos que desejemos uma análise superficial e equivocada. A real dificuldade é imaginar como The Avalanches soaria hoje, dadas todas as circunstâncias surgidas neste tempo, sobretudo a inimaginável aura cult que a obra destes sujeitos australianos ganhou. Não espanta que o novo disco seja um misto das origens sampleadoras e geniais com o burburinho e expectativa surgidos com o passar dos anos e tudo parece funcionar por aqui.

Vejamos as diferenças entre os discos, mas antes notemos que The Avalanches passou por um “downsizing”, para usar um termo caro aos entusiastas do neoliberalismo vazio. Dos seis integrantes presentes em 2000, restam apenas três, sendo que Robbie Chater e Tony di Biasi, as mentes pensantes desde sempre, estão presentes, devidamente assistidas pelo multi-DJ e tecladista, James De La Cruz. A época musical a ser reverenciada permanece a mesma, no caso, aquele fim de anos 1960/início de anos 1970 e isso não causa espanto, justamente porque é o tempo áureo do Pop radiofônico. Sim, é coisa de gente que está na casa dos quarenta e poucos anos, mas que é a própria essência da música verdadeiramente popular, que vendia discos e cativava. E os caras de The Avalanches são nerds de música, colecionadores compulsivos de música, fazendo todo o sentido do mundo a homenagem que eles prestam a este tempo.

Wildflower é muito mais simples que o antecessor, ainda que pareça mais complexo por conta da quantidade razoável de convidados especiais, que jogam a favor do álbum. Temos o sensacional (e infelizmente esquecido) grupo de rap Camp Lo em Because I’m Me, que soa como se tivesse sido gravada em qualquer sala de residência de classe média do mundo, na qual alguma criança estivesse vendo um desenho animado do Jackson 5 ou algo semelhante. O rap dos sujeitos surge como um choque temporal, mas fazendo todo o sentido. Toro y Moi surge pimpão em If I Was A Folkstar, com uma levada sensacional e submersa, com mais tropicalidade dançante de beira de piscina com coquetéis coloridos. Jonathan Donahue, vocalista e cérebro de Mercury Rev é a estrela de Colours, outro single que mais parece trilha sonora de sonho de quarentões descolados. Donahue também surge em Harmony, cheia de sons, ruídos e samples que também parecem retirados de anúncios e desenhos animados da TV setentista. Em meio à melodia, um coral infantil que poderia estar num disco de The Carpenters.

Live A Lifetime Love tem participação de Ariel Pink e conjura vocais infantis beachboyanos com caos sonoro, com bom resultado. Father John Misty dá contemporaneidade à última faixa do álbum, Saturday Night Inside Out,com mais sons híbridos de sonho e urbanidade setentista. A melhor faixa do álbum, no entanto, é Subways, na qual o trio australiano atua sozinho, enfurnado em seu estúdio-caverna, cavando discos obscuros e sonoridades malucas, processando, adaptando e criando novidade a partir de velharias. No caso, o refrão de Warm Ride, composição dourada de Bee Gees, gravada por seu irmão mais novo, Andy Gibb e pelo grupo americano Rare Earth, um verdadeiro cavalo de batalha de 40 anos atrás. O modelo criativo de The Avalanches, além de mirar em sua própria origem, se sai com uma velada homenagem às caleidoscópicas criações de Brian Wilson em seu período Pet Sounds/*Smile, ali, por volta de 1966/67, quando ele decidiu criar uma música lúdica e afável.

Em termos sonoros, o trio soa como um respeitoso membro tardio desta lógica musical ampla, sem qualquer preocupação vendedora ou hypesca. Pode não ser original como a estreia, mas é possível pensar que é uma ampliação do conceito, talvez mesmo uma concessão a felizardos, para que participem deste processo. Neste caso, para usar uma referência cinematográfica bem cara aos rapazes, Wildflower parece um passeio pela Fantástica Fábrica de Chocolate. Se The Avalanches levar mais 16 anos para gravar um disco, este também será um clássico. Bem vindos de volta.

(Wildflower em uma faixa: Subways)

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BOM PARA QUEM OUVE: De La Soul, The Beach Boys, M83
MARCADORES: Ouça

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.