Resenhas

The Black Keys – Turn Blue

Trabalho mais calmo, inspirado e espontâneo do que o esperado, disco é um importante passo na carreira do duo

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Ano: 2014
Selo: Nonesuch Records
# Faixas: 11
Estilos: Rock, Indie Rock
Duração: 46:00
Nota: 3.5
Produção: Brian Burton (Danger Mouse)
SoundCloud: /tracks/141235473
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Fturn-blue%2Fid841098321%3Fuo%3D4%26partnerId%3D2003

Esses dias aqui na redação, rolou uma conversa sobre grandes bandas de Rock atuais, iniciada com algum comentário sobre …Like Clockwork, de Queens Of The Stone Age. Quando usamos o termo “grandes”, queremos dizer em todos os sentidos, seja fazendo um Rock grandioso, puro, sem necessitar daquela classificação em subgêneros e também atingindo grandes públicos, ganhando prêmios, entrando de vez pra cultura Pop.

Apesar do Rock não ter acabado e nem estar perto disso, um fato incontestável é que ele (por alguns motivos que não iremos discutir neste texto) perdeu boa parte do espaço que tinha na música popular, seu apelo com as massas. Temos alguns figurões como The Rolling Stones, Pearl Jam, Black Sabbath, Metallica, Bruce Springsteen e outros que vez ou outra conseguem novamente os holofotes, mas estão longe de estarem presentes em nosso dia a dia como estavam em seus melhores tempos e, salvo algumas exceções, continuam sempre sendo vistos como artistas que vivem de seu passado. Outras menores, como as que costumamos falar diariamente por aqui, dificilmente ganham seu espaço na mídia e muitas nem parecem tentar muito. Por último, temos um meio termo, algumas bandas que realmente tem ganhado grande visibilidade, mas mesmo estas, ainda recebem o curioso título de “alternativas” de algumas pessoas, apesar de dividirem espaço com os nomes do Pop em premiações, programas de TV, trilhas sonoras de blockbusters e quaisquer outros índices de sucesso e popularidade. Definitivamente, The Black Keys é um duo que tem conseguido a passos curtos conquistar este espaço nos últimos anos.

Turn Blue é o oitavo disco da dupla em mais de 13 anos de parceria, mas, para muitos, esta informação parece estar errada, já que o sucesso mundial deles venho com seus dois ou três últimos discos. Eles também sabem disso e estavam sentindo o peso da responsabilidade nas costas ao produzir seu novo trabalho, quando tiveram uma epifania e parecem ter lembrado do que significa a música para eles e decidiram não se preocupar muito e fazer o que sempre souberam fazer. Este álbum é resultado deste breve momento de lucidez e traz a banda confortável em um trabalho com muito mais personalidade e alma do que El Camino, mas talvez sem o peso e a potência dos outros trabalhos anteriores.

Weight Of Love começa já quebrando com qualquer expectativa que os apreciadores de hits como Lonely Boy, ou mesmo quem havia gostado do single Fever previamente liberado, poderiam ter. Uma gravação épica de quase sete minutos em que Dan Auerbach introduz a canção se soltando em um belíssimo solo de guitarra de mais de dois minutos, digno daquelas cenas de filme em que deixam o personagem que ninguém imagina ser o “bonzão” sozinho com uma bola de basquete – ou no caso, uma guitarra – e ele surpreende todo mundo. Em seguida, a melodia vocal, linha de baixo contagiante e a bateria precisa de Patrick Carney fazem jus à introdução e mudam imediatamente a relação que qualquer um esperava ter com o disco. É pra dançar sozinho, fazer air guitar, bater o pé e se emocionar, porque é bonita de verdade.

O que vem a seguir são faixas que nos fazem esquecer o Black Keys pra cima com o qual nos acostumamos nos últimos tempos. Estas faixas parecem todas menos planejadas, mais espontâneas, tem cara de que foram feitas por amigos que gostam muito de música e se reuniram para fazer um som. Por isso mesmo, o peso de um disco recheado de singles não está lá, inclusive Fever, uma das mais fracas do trabalho, parece artificial demais dentro de um todo tão bem amarradinho. Quem quiser este clima mais pra cima, fique com El Camino e boa parte de Brothers que estará muito mais bem servido.

Mesmo voltando a fazer um som menos planejado para as rádios e para as grandes arenas, The Black Keys não voltou ao seu Blues Rock de origem. Elementos do Rock Clássico e da Psicodelia tomaram conta dos rapazes, mas não de maneira óbvia, não se tornaram mais um clone de Tame Impala ou qualquer coisa do tipo, como alguns insinuavam após lerem as primeiras entrevistas sobre o disco. Vemos um pouco de Led Zeppelin, The Beatles e Jimi Hendrix, mas está tudo muito bem incorporado no som deles, sem parecer uma inspiração calculada.

O ponto fraco está talvez nas letras, que nunca chegaram a ser o ponto forte de The Black Keys, principalmente em seus trabalhos mais recentes, nos quais criam primeiro as melodias vocais e depois tentam encaixar letras ali no meio, processo esquisito para leigos como nós, mas que para a dupla parece estar funcionando. Segundo eles, boa parte dos clássicos ícones da música que cantamos até hoje, tem letras que não significam nada, mas são sons deliciosos de ouvir. Os pontos fortes ficam nas baladas cheias de alma, num clima bem mais próximo de Never Give You Up ou de Little Black Submarines do que de qualquer outra faixa dos rapazes. Não passe batido por Year In Review, Bullet In The Brain (segunda melhor) e Waiting On Words para sentir esse clima gostoso, mas tampouco ignore a divertidíssima Gotta Get Away, perfeita para cantar junto numa viagem de carro e que trabalha brilhantemente influências do Country americano, um outro lado divertido do duo que não esperávamos encontrar.

Turn Blue não é um clássico instantâneo para quem está como nós, mergulhado diariamente no mundo da música e vendo bandas criativas realmente puxando gêneros para caminhos jamais explorados, mas é um disco de Rock bastante válido para uma geração que não está tão acostumada com o gênero. É menos relevante quando pensamos na sua importância para o Rock ou para a música Pop, mas talvez um passo bastante importante para a carreira de uma banda que esta sim, pode ter alguma relevância para o Pop Rock contemporâneo.

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Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.