Resenhas

The Capsules – The Long Goodbye

Entre climas oitentistas e cover de “I Will Survive”, dupla faz álbum que não passa desapercebido

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Ano: 2014
Selo: Saint Marie
# Faixas: 13
Estilos: Dreampop, Eletrônico, Indiepop
Duração: 58:15min
Nota: 3.5
Produção: Jason Shields

Jason e Julie Shields são um casal como muitos dos que vemos em filmes americanos dos anos 1990. Descolados e nerds, se conheceram no colégio, foram e vieram de vários lugares até decidirem viver juntos e abrir um negócio juntos e tocar a vida. Neste caso, podemos substituir uma pequena loja de conveniência ou um atelier de pintura pelo amor da dupla pela boa música, sobretudo pelo Pop/Rock mais cinzento e sintetizado, produzido tanto por formações americanas como Galaxie 500 e Luna como por matrizes britânicas do calibre de Cocteau Twins e Lush. A voz de Julie é um pequeno achado e submerge em meio a turbilhões de teclados e guitarras providos pelo marido, tudo devidamente suportado pela bateria discreta de Kevin Trevino, recrutado quando a banda anterior do casal, Shallow, implodiu em 1999. Três anos depois, The Capsules já lançava o primeiro disco, Reverser.

A migração do terreno do Pop de guitarras à la Garbage praticado por Shallow rumo às delicadas texturas de teclados/guitarras/voz de hoje não foi tranquila e durou uma década para se estabelecer. Ao longo deste tempo, a banda pendeu para um dos lados alternando-se à medida que os álbuns eram lançados, com espaço para emplacar uma canção no desenho Bob Esponja, a brejeira Bossy Boots Song, em 2004. Finalmente, após saírem do estado americano do Kansas, rumo ao Texas, assinarem com o selo especializado em Dreampop, Saint Marie e com o lançamento de The Long Goodbye, a balança musical do grupo equilibrou-se lindamente.

São treze canções, entre elas a surpreendente cover para I Will Survive, sucesso Disco na voz de Glora Gaynor, que já havia ganho releitura inusitada por conta dos fanfarrões geniais da banda Cake em fins dos anos 1990. A versão que Julie, Jason e Kevin propõem, leva a canção a passear pelas alamedas geladas do Synthpop, sem que isso cause qualquer dano ao espírito de resistência às intempéries emocionais que a letra suscita. Dentre as criações autorais, chama a atenção a pulsação quase sacra que Monster apresenta, com a voz de Julie atingindo níveis irresistíveis de uma fofura não exatamente carinhosa, algo talvez alienígena, mas muito bonito. As guitarras oitentistas, erguidas por Jason, completam o panorama.

Outro belo exemplo da estética perseguida pela banda aparece em Hollywood, com introdução climática e instrumental espacial, com os vocais de Julie pairando sobre a paisagem de uma Los Angeles pós-Blade Runner. A beleza gelada de You Are A Metaphor alterna climas oitentistas em forma de gotas sintetizadas e guitarras que poderiam conter ecos do trabalho de The Edge circa 1987.

With Every Hour poderia participar da trilha sonora de filmes de sci-fi atuais, como Oblivion, cuja música foi composta por M83. A ambiência é de futuro desolado, com inverno se derretendo. Novamente há ecos de guitarras à la U2, como se fosse algum rabisco de ideias para discos como Joshua Tree ou Unforgettable Fire. The Forgotten Days tem abordagem mais dançante, com sonoridade pinçada de alguma parada de sucesso obscura dos anos 1980, com final apoteótico e guitarras apitando em meio ao caos.

The Capsules tem o mérito de oferecer um panorama moderno e generoso do que se chama Dreampop, transitando pelos terrenos em que a união de teclados e guitarras, devidamente turbinados por efeitos e camadas de aditivos eletrônicos, podem soar de várias maneiras, criando variações e novas abordagens, que servem, ao invés de descaracterizar a obra da banda, reafirmam sonoridades e texturas originais. A alternância de paisagens verdes, geladas, noturnas e matinais é o grande charme dessa incomum formação do Meio Oeste americano. Conheça.

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BOM PARA QUEM OUVE: Low, Metric, M83
ARTISTA: the capsules

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.