Resenhas

The Coral – The Coral Island

10º disco banda britânica revisita sonoridades dos 25 anos de carreira e constrói narrativa envolvente sobre a passagem do tempo

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Ano: 2021
Selo: Run On Records/Modern Sky UK
# Faixas: 24
Estilos: Rock Psicodélico, Folk Rock
Duração: 54'
Produção: The Coral

Um dos maiores desafios que uma banda com muitos anos de estrada é se manter constantemente relevante. Os contextos de cada ano mudam e muitas vezes se reinventar traz estranhamento por parte dos fãs mais old school. Da mesma forma, permanecer estagnado na mesma estética pode fazer um artista ser esquecido facilmente à luz de novas tendências – aquela famosa síndrome de Peter Pan. É difícil administrar tudo isso, mas há um trunfo ao se ter tanto tempo de carreira: há muitas histórias para serem contadas. Assim, enquanto sonoramente temos um desafio constante, tematicamente há um poço sem fundo recheado de histórias e experiências prontas para ganhar uma nova forma. E The Coral sabe contar histórias muito bem.

Com 25 anos de estrada e 10 discos lançados, este conjunto inglês consolidou suas narrativas a partir de referências dos anos 1960/70. Seu campo de expertise é o rock Psicodélico, mas não aquele altamente lisérgico de Mutantes/The Doors. A linha de preferência de The Coral é a psicodelia que flerta com o Folk, e as trips vêm mais da exploração de temas como o amor, viagens e vivências. Assim, seus discos se apoiam em uma experiência mundana, porém altamente cativante, e registros como Magic & Medicine (2002) e Roots and Echoes (2007) são ótimos exemplos de como é possível envolver o ouvinte a partir de temas relativamente simples. Entretanto, em uma entrevista para NME, a própria banda reconhece que com 10 discos é difícil se manter relevante e que, para seu novo lançamento, seria preciso algo épico para marcar história. Dito e feito.

The Coral Island explora aquela habilidade da banda de contar histórias, aliada a uma sonoridade consolidada pelo tempo. É um trabalho que continua a explorar as nuances do Folk Rock, mas como um bom disco do gênero, tem uma boa e cativante história por trás. Aqui, a protagonista do trabalho é a própria Coral Island, uma ilha famosa por ser uma atração de verão recheada de festivais itinerantes e parques de diversão, mas que durante o inverno permanece abandonada às traças. É um trabalho que fala tanto das personagens envolvidas nestas duas estações, mas também sobre a passagem do tempo e de revisitar lugares comuns de nossa juventude, percebendo que muito já se passou. Para isso, The Coral usa o formato de um disco duplo que beira uma hora de reprodução e sua divisão tem uma função importante para a construção da narrativa. Além disso, há literalmente um narrador acompanhando as músicas, conduzindo o ouvinte pelo auge e declínio da paisagem protagonista.

A primeira metade é ensolarada e traz o auge da ilha como o principal material de inspiração. Assim, temos um lado do Folk carregado de arranjos abertos, violões e coros de voz suaves. É uma grande viagem pelo verão britânico. “Lover Undiscovered” exala o perfume do amor de verão, apelando para um refrão pegajoso e que com certeza funciona como a canção Pop da estação deste mundo fictício. “My Best Friend”, por sua vez, ilustra o companheirismo e amizade por meio de uma canção que traz referências de Beach Boys até Skyway Man. Quase no fim do registro, o sol começa a descer, dando espaço para humores um pouco mais gélidos. “Autumn Has Come” brinca com arranjos menores, dando um aspecto mais introspectivo e um tom de encerramento propício para esta primeira parte.

A segunda parte, concebida inicialmente para ser um disco separado, aborda o lado dos festivais itinerantes que ninguém vê: quando está tudo desmontado e a ilha repleta de luzes e alegria, cede espaço para um espaço abandonado à própria sorte. O clima é tão frio que até fantasmas entram na narrativa da banda – sendo o título inicial deste segundo disco “The Ghost of Coral Island” e apresentado pelo narrador sob um clima assustador e fantasmagórico. Os reverbs assumem um papel mais ativo nesta segunda parte, como na intrigante “Faceless Angel” com seus órgãos nostálgicos. “Strange Illusions” é uma balada fúnebre, quase um Blues, que encontra na psicodelia do grupo um espaço ótimo para desvelar toda a sua essência misteriosa e tenebrosa. “Watch You Disappear” se apega aos temas da série Western para prender o ouvinte em uma tensão de perseguição que dura toda a canção.

Com 25 anos de carreira, é apenas natural que a passagem do tempo seja um tema tão caro ao The Coral. O disco, de certa forma, acompanha este momento da banda, trazendo uma reflexão sobre revisitar os mesmos lugares e compreendê-los a partir de novas experiências. De certa forma, é como se a ilha narrada pelo grupo representasse a sonoridade da banda, a qual eles revisitam por novos caminhos e descobrem fantasmas adormecidos. Um disco que nos prende pela riqueza construída em sua narrativa.

(The Coral Island em uma faixa: “Faceless Angel”) 

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ARTISTA: The Coral

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.