Resenhas

The Flaming Lips – American Head

Novo disco de grande nome da psicodelia moderna se volta ao Folk americano como inspiração primária para refletir sobre os caóticos acontecimentos recentes

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Ano: 2020
Selo: Warner/Bella Union
# Faixas: 13
Estilos: Folk, Psicodelia
Duração: 50'
Produção: The Flaming Lips, Dave Friedmann e Scott Booker

The Flaming Lips é um nome que pode, digamos, intimidar muitos marinheiros de primeira viagem. Com quase quarenta anos de carreira e uma produção musical que se alastra por 17 discos autorais, 18 EPs, 10 discos de compilação, além de incontáveis projetos solos e discos covers, é difícil pensar por onde começar a ouvir e analisar uma banda tão prolífica quanto esta. Naturalmente, a longevidade de sua carreira implica que o grupo atravessou quase meio século de acontecimentos históricos e isto, de uma forma ou outra, se reflete em sua sonoridade através dos tempos.

A lendária e mirabolante psicodelia expressa em suas canções certamente foi um dos estilos mais capazes de dar conta dos reflexos políticos do novo milênio, colocando um experimentalismo pioneiro sempre à frente para alcançar novas formas de expressão, cada vez mais camaleônicas e ousadas. Assim, ao anunciar, em março deste ano, a chegada de um novo disco, nossa curiosidade foi instigada: como The Flaming Lips representaria um ano tão adverso quanto 2020, marcado por COVID-19, Black Lives Matter, uma ascensão monstruosa da extrema-direita, entre tantos outros eventos. Tudo fazia crer que um Frankenstein psicodélico fosse o caminho mais apropriado para englobar tudo isso, mas o grupo encarnou esse pseudo-apocalipse em outros termos – a simplicidade e o otimismo.

American Head traz um retorno do grupo às suas raízes do Folk Americano, deixando de lado todo o legado caótico que seus discos psicodélicos célebres deixaram – como Yoshimi Battles the Pink Robots (2002) e At War With the Mystics (2006). Aqui, o velho violão de aço é um companheiro inseparável de Wayne Coyne, líder do grupo, servindo como ferramenta para entregar uma mensagem de esperança, na qual as relações humanas são o fundamento nesta percepção da desordenada nova década. Wayne, no entanto, não quer que esta mensagem seja compreendida como uma fugaz experiência hippie, em que as drogas expandem sua mente e o rock ‘n roll salva o mundo. Mas, ao invés de encarar o mundo em uma postura de “tudo estar dando errado”, o grupo procurar olhar mais atentamente às relações humanas e como tudo isso tem se transformado em meio aos desastres. Talvez por isso, a música Folk americana, inundada de uma tradição sincera de contar histórias sobre pessoas, tenha sido a escolha apropriada para narrar esta experiência.

De qualquer forma, a psicodelia não é completamente abandonada. Ela funciona em American Head como um alicerce para complementar a profundidade emocional do Folk. Somos surpreendidos com canções extremamente emocionantes, que aproveitam este universo sonoro calmo e ressonante para postular reflexões pessoais em seu entorno.  Em entrevista à Rolling Stone, Wayne comenta que não acredita que o mundo seja apenas um lugar punidor que esteja aí para nos ensinar lições cruéis; ele acredita que o mundo também pode ser tão lindo quanto nós vemos. E é justamente isso que a sonoridade do disco procura explorar: que em meio a todo a caos e absurdo, podemos ter tempo para olhar para alguma coisa que nos faça sentido. Uma sinceridade do Folk sustentada pela loucura da psicodelia.

O disco já começa com um chute no estômago – a mágica “Will You Return/When You Come Down” explorando o tema dos amigos que já nos deixaram e as incessantes perguntas que se formam em nossa cabeça (Você vai descer? / Você vai retornar?). Já em “Flowers of Neptune 6” temos uma verdadeira odisseia na qual, segundo Wayne, a ideia era falar sobre como os irmãos mais velhos pareciam ser pessoas tão diferentes de nós e que, na verdade, são as mesmas pessoas que nós. Apesar do sugestivo título e da sonoridade dos anos 1960, “Mother I’ve Taken LSD” é uma reflexão menos pautada na lisergia, e mais nas conversas sinceras que Wayne teve com o irmão que acabara de contar que experimentara a droga.

O metafísico também ganha espaço nos diálogos do disco, principalmente na emocionante “Mother, Please Don’t Be Sad” cujo tema da conversa é a súplica para que a mãe não fique triste, pois o narrador acabou de morrer. “God and The Policeman” discute a culpa diante de pontos de vista como o religioso e o judiciário, contando com a participação de uma das atuais forças do Folk Americano, Kacey Musgraves. O disco se encerra com “My Religion Is You”, canção que deixa clara a importância dos vínculos pessoais para Wayne Coyne, muito mais do que as diferentes concepções de Deus.

The Flaming Lips contraria as expectativas colocadas em seus ombros pelo título de “mestres da psicodelia” e produz, assim, um disco repleto de emoção e sinceridade. O Folk aqui pinta novos contornos para uma banda lendária e eles, por sua vez, procuram colocar suas filosofias e pensamentos inseridos em um contexto extremamente arrebatador, como o histórico 2020. Um disco que não nega os acontecimentos por meio de uma atitude Miss Universo Hippie, mas nos pede um olhar atento para as relações humanas. Um registro otimista caótico, por assim dizer.

(American Head em uma faixa: “Flowers Of Neptune 6”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.