Resenhas

The Gilbertos – Um Novo Ritmo Vai Nascer

Thomas Pappon retorna com quarto disco de sua “one man band” e seus sambas tortos

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Ano: 2014
Selo: Midsummer Madness
# Faixas: 11
Estilos: Pós-MPB, Eletrônico, Low-Fi
Duração: 47:42min
Nota: 3.5
Produção: Thomas Pappon

Quem lia a revista Bizz na sua primeira hora, a partir de meados dos anos 1980, há de lembrar-se de Thomas Pappon. Além de integrar a equipe de jornalismo da publicação, Pappon também fazia parte de um grupo chamado Fellini, privilégio de poucos ouvintes, mas dono de uma proposta interessante de atualizar a música brasileira se valendo da abordagem Eletrônica e artística conseguida nos anos 1970, sobretudo por bandas que se equilibravam entre o Punk e o Pós-Punk, com teclados, sintetizadores e tudo mais. Era gente que não precisava tocar instrumentos com habilidade mas que necessitava pensar a música Pop com mente ampla.

É claro, Fellini continuou no underground dos leitores da revista e, de um minuto para outro, Pappon deixou a publicação e foi morar em Londres, trabalhando para a BBC, inviabilizando sua permanência em Fellini. Em pouco tempo, ele já estava ampliando sua visão e criando uma nova “banda”, formada apenas por ele e um gravador Tascan: The Gilbertos. Fundindo uma palavra que conecta-se à MPB e à modernidade ao mesmo tempo (Gilberto), Thomas deu asas à imaginação e começou a gravar suas novas composições sem compromisso, até que, por conta de um revival de Fellini no início do milênio, ele encontrou-se com o produtor Rodrigo Lariú, que topou lançar seus registros caseiros sob o nome Os Eurosambas. Tal decisão viabilizou para Thomas a existência de seu projeto para um público que não parecia o alvo idealizado por ele em seus rabiscos sonoros de fim de semana londrinos.

De 2000 para cá, The Gilbertos já conta com três álbuns e entrega seu quarto ramalhete de canções, mantendo a mesma abordagem moderna e revisionista da MPB. Temos guitarras, efeitos especiais, teclados e percussão sintetizada, tudo a serviço de pegar emprestado conceitos válidos da música feita aqui durante os anos 1960 e 1970, e redirecioná-la para os nossos tempos sem que seja necessário abrir mão da audição mais apurada, da possibilidade de ouvir e perceber detalhes e de enxergar novas e velhas influências. É tudo meio psicodélico, mas nada datado ou clichê. Pappon chega a definir sua sonoridade atual como Eletrofolk, que se vale tanto de efeitos de cello quanto de sintetizadores. Não é um rótulo preciso, mas chega bem perto.

Um Novo Ritmo Vai Nascer já chega com as participações do baixista Ricardo Salvagni e do baterista Lauro Lellis, que enviaram seus registros através da Internet. As canções foram todas gravadas no estúdio caseiro de Thomas e logo disponibilizadas online. No percurso das dez canções, Pappon nos conduz por um caminho simpático e típico da pessoa que enxerga seu objeto de inspiração com certa distância. Eduardo é homenagem em violão e efeitos discretíssimos a nomes e frases dentro de uma lógica musical de saudade de uma paisagem ideal e distante, abrindo passagem para Everybody Wants, cheia de efeitos de voz e percussão de samba embranquecido, mas que não chega a comprometer. Apesar também segue pela via dos semissambas tortos e com vocais além do normal, conferindo a Get Wyatt, canção seguinte, contornos de maior experimentalismo, com abordagem mais “de banda” e vocais em inglês.

Um Mundo Bem Melhor é otimista como o título, sem ironias e com um belo verso inicial “subi a Consolação por um país melhor, por mais educação, transporte e atenção”, mais engajado que a maior parte da produção musical feita no país atualmente. O Novo Rei da Canção é uma inesperada homenagem à estética musical do grupo Secos & Molhados, famoso no país no início dos anos 1970, que contava com Ney Matogrosso nos vocais. Thomas canta em falsete e escolhe instrumentos estratégicos para ornar o arranjo da canção e prepara o caminho para a faixa seguinte, My Love, outra com letra em inglês, mas cheia de referências nacionais percussivas e rítmicas. Bem Tarde é mais um samba torto e anguloso, com efeitos simpáticos de guitarra e voz. Mais Ninguém é quase samba rock, dolente e vocais assustados eu não tenho mais ninguém, eu não vejo mais ninguém, falando da solidão em bloco das grandes cidades. Valsa do Tietê retoma a narrativa para a saudade, a cidade natal, mas sem qualquer carinho, preparando o ouvinte para o final do disco, que chega com Be Quiet, brincadeira com vocais em inglês e pinta de canção dos anos 1980 que, com o arranjo certo, poderia ser tocada por The Cure.

O quarto disco de The Gilbertos é uma boa oportunidade para percebermos o que pode e o que não pode ser considerado MPB, sempre lembrando que há possibilidades aqui e ali, basta saber conectá-las e ligar os pontos. Thomas Pappon, lá de sua casa em Londres, consegue enxergar nuances que passam despercebidas da maioria. Disco legal.

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BOM PARA QUEM OUVE: Badly Drawn Boy, Neil Finn, Four Tet
ARTISTA: The Gilbertos
MARCADORES: Eletrônico, Lo-Fi, Pós-MPB

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.