Resenhas

The Haxan Cloak – Excavation

Produtor inglês se aproxima do eletrônico para trazer uma compilação de nove faixas dignas de trilha sonora para filme de terror

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Ano: 2013
Selo: Tri Angle
# Faixas: 9
Estilos: Experimental, Ambient Music, Dub
Duração: 51"19'
Nota: 4.0
Produção: Bobby Krlic

Medrosos, parem por aqui. Bobby Krlic, o nome que dá vida ao pseudônimo The Haxan Cloak, brinca de Stephen King e concretiza uma obra que inspira o imaginário da vida após a morte. Excavation, o segundo álbum do londrino, deixa a temática da agonia pré-morte, presente em seu álbum de estreia, e foca agora na jornada que todos experimentaremos (ou não?) quando nossa vida acabar. Quem acredita que há luz no fim do túnel é desafiado pelas teorias de Krlic. O produtor constrói sua atmosfera mórbida de uma forma misteriosa e densa, bem como agonizante e potencialmente assustadora.

Lembrando que o trabalho é, talvez, o que mais se aproxima do eletrônico. Nele, Haxan faz a dosagem original entre o orgânico e o sintetizado, dando chamadas e ensaios que poderiam facilmente ser rítmicas e, no entanto, se perdem diante do roteiro de Bobby. Excavation tem nove faixas e vem de um selo que tem fama de ter em seu time, produtores que gostam que seus resultados representem estados de espírito. Sua estrutura poderia facilmente fazer parte de uma trilha sonora de um filme de terror, sendo por isso tão difícil de ouvir o álbum de Haxan Cloak de uma só vez. Também por conta de algumas faixas serem longas (acima de cinco chegando até doze minutos), tudo se assemelha a uma base narrativa, em que é nítido a construção de sonorização para cenas de um filme. Excavation não é um LP para se ouvir para entretenimento ou ajudar a se focar, e sim um trabalho que demanda tempo, dedicação e coragem para entender sua proposta. Isso tudo com um som especializado para que se tenha acesso a todas as frequências com as quais Krlic ilustra suas faixas, ou seja, caixinhas de som padrão ou fones de ouvido genéricos não são indicados para entrar no mundo perturbado de Krlic.

As portas do infinito são abertas com Consumed, uma faixa para dar o gosto do que vai ser Excavation. Uma progressão de suspense é feita até começar uma batida repetida, como se fossem passos em movimento, tudo para chegar em um destino. Ao que tudo indica, a faixa que dá nome ao álbum era este ponto final. A primeira parte da música se inicia com um diálogo e começa uma longa jornada inconsciente, que parece se despertar somente na segunda parte. Aqui os sintetizadores dão a ideia de um distúrbio, uma instabilidade muito grande e um conflito psicológico de extrema complexidade. Como se houvesse um contato com quem tivesse problemas, mas que se abranda ao final. Mara dá continuidade aos passos e passa uma ideia de corte, perfuração e um ato de abandono, elaborando uma atmosfera de suspense para prosseguir com o que continua ainda em Miste. (faixa que se inicia com um grito de súplica em loop com a companhia de chocalhos e barulho de motor ao fundo.)

Em seguida, chegamos a segunda música dividida em duas partes. The Mirror Reflecting, Part 1 começa com rajadas de ventos e sussurros fracos. O tremor construído ao longo do tempo levam a badaladas que cessam na segunda metade da faixa e constroem, novamente, uma jornada palpável no início de sua segunda parte. Com uma linha de baixo forte e trêmula, The Mirror Reflecting, Part 2 é onde há a maior aproximação de um clímax. Com um Dubstep futurista, Cloak brinca com o tic-tac de relógios que somem e voltam, baixos com grave trêmulos e sintetizadores repetidos. No segundo minuto de música, os badalos voltam em silêncio até ganharem a companhia de sintetizadores rasgados e riffs de guitarra, até uma boa surpresa em seu fim. O desfecho vem com Dieu e sua base de sintetizadores rasgados e uma linha de percussão marcada. Aqui é onde há um maior ensaio rítmico e menos narrativo. O clima de suspense continua inclusive com trechos vocais, violinos e cello. The Drop dá fim à escavação com longos doze minutos rítmicos que passam rápido. Um riff simples que se repete com a adição de sintetizadores, badaladas, notas de violino e sons orgânicos, morotizados e até batida de um coração.

Sem dúvida, trata-se de um trabalho visceral. Excavation, como o próprio nome sugere, é um convite a uma viagem interior ao desconhecido. Seguindo a premissa do medo, Haxan Cloak brinca com sensações que fogem da racionalidade e trazem o lado mais humano e selvagem do indivíduo. Bobby se propõe a desvendar os lugares mais submersos e sombrios do imaginário mórbido para que seus ouvintes descubram percepções que dificilmente teriam coragem de fazer por vontade própria. É agonizante, quase invasivo. E é no patamar da bravura que Krlic se encontra. Infelizmente, Cloak não inova muito os elementos de música para música, mas mostra uma despreocupação em ter uma progressão rítmica. Aqui, a intenção é justamente cavar, ir abaixo, encontrar o âmago e achar a ferida antes que comece a doer. The Haxan Cloak tem o significado mais puro de ser um artista. Mesmo que mórbido, sangrento e sombrio, foi uma forma de vender uma sensação. E essa mensagem foi passada de uma maneira clara e sufocante.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King