Resenhas

The Jesus And Mary Chain – Damage And Joy

Escoceses retornam com disco fiel à sua tradição

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Ano: 2017
Selo: ADA/Warner
# Faixas: 14
Estilos: Pós-Punk, Rock Alternativo, Rock
Duração: 53:03
Nota: 4.0
Produção: Youth

O Rock, senhoras e senhores, moças e rapazes, não morreu. Tampouco está no mundo dos vivos. O redivivo The Jesus And Mary Chain tem a resposta para este questionamento que nos assalta de quando em quando. Os irmãos Reid cantam logo na primeira faixa de seu novíssimo Damage And Joy, Amputation: “I’m a rock’n’roll amputation”. É isso, o estilo que acenou com possibilidades variadas em campos distintos da cultura do século passado, ficou pra trás em alguma curva do caminho até aqui. Carregar o rótulo ficou pesado a tal ponto de deboche/ironia/sentimento da dupla escocesa cair como uma luva na situação que temos hoje: dois cinquentões, voltando de 19 anos sem lançar um álbum de canções inéditas, se sentem como uma “amputação rock’n’roll”. É pra se pensar e para olhar o tanto de fãs de “Classic Rock” xenófobos, racistas, preconceituosos e fascistas que temos por aí. Felizmente, nenhuma dessas palavras, tampouco o termo “classic rock” cabe no território da corrente de Jesus e Maria.

Os mais atentos e com melhor memória hão de comparar tal reflexão com a ainda mais taxativa I Hate/Love Rock’n’Roll, faixas do trabalho anterior do grupo, Munki, de 1998. A postura é a mesma, o humor dos caras também. Este novo álbum, apenas o sétimo lançado pelo grupo desde o início de carreira, lá nos anos 1980, vem cheio de atrativos para os velhos fãs. Os irmãos Reid se reservam o direito de não propor algo absolutamente novo que vá conquistar admiradores adolescentes/jovens de hoje. Apenas quem já é familiarizado com seu combo melodia/microfonia/dias cinzentos há de se sentir em casa e devidamente afofado pelas 14 faixas do álbum. Mas há algumas diferenças entre este e os trabalhos anteriores; o maior deles é a presença de Youth na produção. Pra quem não sabe, ele é um produtor figurão da música eletrônica dos anos 1990 e parceiro ocasional de ninguém menos que Paul McCartney em seu pouco conhecido lado experimental, The Fireman. O outro é a participação de cantoras como Isobel Campbell, Berndette Denning e Sky Ferreira em algumas faixas.

A fórmula mágica sonora está intacta. Vocais entediados de Jim Reid, guitarras microfonadas de William Reid, uma bateria eletrônica ou o baterista Brian Young (que toca ao vivo com os irmãos em turnê) e o próprio Youth no baixo. Tal configuração garante os esqueletos melódicos do grupo e ressalta a beleza das melodias que eles conseguem compor. Há algumas verdadeiras pepitas de ouro entre as novas canções que eles oferecem. No caldeirão ainda segue a mesma mistureba de sempre: melodias douradas dos anos 1960, da conexão The Beach Boys/Phil Spector + microfonia + Ramones. No entanto, o tempo fez com que os Reid privilegiassem canções mais tranquilas, nas quais sua receita mágina funciona (ainda) melhor. Este é o caso da bela e teenagefanclubiana The Two Of Us, que traz dueto com Isobel e mostra o quanto a dupla é capaz de forjar uma canção quase atemporal com o básico dos básicos, calcada em um riff milagroso e num refrão que faz surgir um sorriso no rosto do crítico.

All Things Must Pass, outra faixa com melodia digna de manual, é mais uma a se destacar. É dessas canções que surgem com pinta de que sempre estiveram aqui, esperando alguém compô-las. Sua audição é totalmente familiar e a impressão é de encontrarmos um velho amigo que não vemos há 20 anos. Em Get On Home surge aquela barulheira característica, que entra pela melodia sem avisar e polui (no ótimo sentido), novamente fazendo o sorriso surgir. A faixa dividida com Sky, a boa Black And Blues também vai pra prateleira de belezuras melódicas, com um pequeno toque psicodélico e aura baladeira, terreno que os irmãos dominam bem, mas no qual pouco se aventuram. A grande balada do álbum é a mediana Los Feliz (Blue And Green), que conta com um arranjo de cordas – isso sim, é uma novidade – e acaba soando como alguma canção que a versão noventista de Echo & The Bunnymen deixou de lado. O fechamento se dá com outra canção semi-baladeira, a bonitinha Can’t Stop The Rock, que traz a presença vocal da irmã dos Reid, Linda Fox.

O saldo de Damaged And Joy é bastante positivo. Há motivos de sobra para que ele figure ao lado de todos os outros lançamentos do grupo, cada um com seus méritos próprios e charmes. O deste novíssimo membro da família talvez seja a capacidade do grupo de manter suas características principais intactas e, mesmo soando como sempre soou, conferir aos ouvintes uma refrescante sensação simultânea de familiaridade e ineditismo. Belezura.

(Damaged And Joy em uma música: The Two Of Us)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.