Resenhas

The Kills – Little Bastards

Coletânea de raridades e b-sides é uma ótima oportunidade para revisitar diversos momentos da banda e ir além dos singles

 168 total views

Ano: 2020
Selo: Domino
# Faixas: 20
Estilos: Indie Rock, Electro Punk, Garage Pop
Duração: 65'
Produção: Jamie Hince, Jonathan Fire*Eater, The Kills, William Skibbe

Com pose descolada, descompromissada e dark, o duo The Kills se colocou com um dos nomes mais relevantes da música Indie dos anos 2000. A mistura de referências era sem dúvida um dos motivos principais que levaram Alison Mosshart e Jamie Hince a encontrar entusiastas de uma sonoridade que conservasse tanto a brutalidade quanto o aspecto dançante. A inquestionável inspiração Punk era entrecortada por um Garage grotesco, ao mesmo tempo que drum machines e sintetizadores iluminavam e davam brilho à festa, criando uma fusão que dosava precisamente ambas estéticas. Já na década seguinte, as coisas foram um pouco menos movimentadas para The Kills, com o lançamento de dois discos de estúdio e um longo período de hiato não oficial causado por um acidente que comprometeu os movimentos da mão de Jamie. Assim, desde então, aquela fugaz explosão inicial dos primeiros discos do duo cedeu espaço para um comportamento mais esparso e a ansiedade de um disco novo de inéditas apenas aumentou desde o último registro oficial, Ash & Ice (2016).

Embora o duo não tenha nos agraciado com um novo trabalho de estúdio, eles escolheram os últimos minutos do segundo tempo de 2020 para lançar uma compilação de músicas das diferentes épocas da banda, que arrepia os pelos de qualquer grande fã de The Kills. Uma reunião de raridades e B-sides que não deve ser encarada só pelo aspecto museológico da coisa, mas uma oportunidade de rever a obra do grupo e explorar os espaços entre os discos. Este parece ser o intuito de Little Bastards, registro que reflete no próprio nome um aspecto nostálgico, mas também irônico sobre como essas faixas muitas vezes eram como filhos bastardos, sem discos definidos e vagando à toa por aí. Little Bastard também é o apelido da bateria eletrônica que acompanhou o duo durante significativa parte da carreira. Assim, mais do que uma mera coletânea, este é um momento de reviver bons capítulos de uma banda tão influente quanto The Kills e perceber que mesmo as “sobras” do disco funcionam como singles em potencial.

“Superpowerless” começa o disco em um fervor Indie intenso, mas que deixa bastante espaço na mixagem, quase como um Punk Minimal. “Night Train” é uma estranhona mistura de batidas eletrônicas, texturas de guitarras assombrosas e repetições pontudas, cutucando nossos ouvidos de forma insistente. “I Call It Art” seria a balada romântica do disco, porém feita à moda The Kills, repleta de tensão e uma efervescência emocional latente nas vozes de Alison. “Jewel Thief” traz um flerte com o Blues dos anos 1950, emprestando da música eletrônica uma célula rítmica esparsa que ressignifica a tradição americana. Mesmo Nina Simone não escapa do olhar sinistro de The Kills, que por sua vez empresta a canção “I Put A Spell On You” para rearranjá-la sob um escopo mais tenebroso. Por fim, “Sugar Baby” encerra a coletânea com um sentimento meio Iggy Pop, compondo um estridente hino de revolta a partir de uma única  nota na guitarra.

Little Bastards funciona como uma explosão nostálgica de toda a ebulição Indie dos anos 2000 e, da mesma forma que o gênero se transformou durante a década, é possível observar os diferentes caminhos tomados pelo grupo durante essa década. Temos desde a explosão Rock do primeiro e longínquo Keep On Your Mean Side (2003), a esquisitice electropunk de No Wow (2005), até o Pop distorcido de seu célebre disco Midnight Boom (2008). Mesmo para um fã menos ensandecido de The Kills, o projeto pode ser uma experiência interessante: conhecer um grupo tão rico a partir de faixas menos prestigiadas, deixando os singles comerciais para um segundo momento. Algumas dessas canções são versões ao vivo ou até mesmo feitas sob uma nova roupagem. Tudo disposto estrategicamente para evidenciar o talento do duo enquanto compositores e produtores exímios que sabem tirar de seus instrumentos uma explosão cirurgicamente amadora e, ao mesmo tempo, poderosa.

(Little Bastards em uma faixa: “Sugar Baby” em uma faixa)

 169 total views

ARTISTA: The Kills

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.