Resenhas

The Lady Machine, Amanda Mussi – Unterwegs II

Com faixas enérgicas de encher a pista, segunda compilação do selo simboliza a união de duas grandes mulheres do Techno no Brasil

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Ano: 2019
Selo: Unterwegs
# Faixas: 4
Estilos: Techno
Duração: 4'
Produção: The Lady Machine, Amanda Mussi

Criado pela brasileira Lady Machine ao lado do inglês Decka, o Unterwegs trouxe a DJ Amanda Mussi na segunda compilação do selo, que busca impulsionar sonoridades em processo de construção. “Unterwegs significa transição, andamento e movimento, propaga a idéia da música estar em trânsito, mudando e expandido para novos territórios. Embora o gênero principal seja o Techno, queremos manter a liberdade de experimentar com gêneros ao seu redor. A princípio a ideia para os dois primeiros lançamentos no selo foi de fazer split EPs, ou seja, apresentar dois artistas. Um em cada lado do disco, mostrando duas faces. Lado A e lado B”, afirma Lady Machine ao Monkeybuzz.

São quatro faixas de Techno enérgicas para encher a pista. “Diligence” abre o EP em um ritmo persecutório rumo a um transe nebuloso, numa evolução hipnotizante a cada beat adicionado. Na sequência, a mente desperta em “Vigilance”, uma trip pesada 4×4. “Esses nomes [diligente e vigilante] simbolizam o momento em que eu me encontro no presente, e também representam o tempo que eu passei estudando. Foram anos de dedicação, seriedade e entusiasmo”, relata a produtora, cuja carreira  iniciou nos meados dos anos 2000, época na qual ela tocava na festa Circuito Techno, foi residente de clubes relevantes na história clubber, como o Bunker, no Rio de Janeiro, e o templo underground paulistano Alôca, além de ter se apresentado nas boates Meganite do Mauro Picotto, Rex Club em Paris, Metro Club na Espanha, Session & Studio, em Bruxelas, e no Club Stockholm na Suécia.

“De lá para cá, muita coisa aconteceu. Nos anos seguintes, eu comecei a tocar muito pela Europa e isso resultou em uma mudança de continente. Aos poucos, eu fui perdendo o contato com o que estava acontecendo no Brasil”. Baseada em Berlim, Lady Machine é residente da Pornceptual, festa queer na qual o público tem grande liberdade com o corpo e sexualidade. “A vibe na Pornceptual é única e a troca de energia é sempre elevada. Eu tento manter essa energia que a pista pede. O que eu acho mais legal lá é que eu sinto essa abertura, liberdade de expressão e inclusão também com a música, não existem rótulos. Por ser uma festa queer, acho que uma coisa puxa a outra. Eu acabo me sentindo livre para seguir a energia da pista, seja em qual direção ela pedir. Isso não existe na maioria das festas que eu já participei. É algo bastante especial” declara a artista ao ser questionada sobre discotecar no projeto.

Quando você pensa ter conseguido dar uma respirada, esqueça, a brisa bate forte nas faixas da Amanda Mussi, sem dúvida, uma das DJs brasileiras com maior relevância internacional e presença nos renomados clubs e festas de Techno. É o momento de entender o porquê do Unterwegs tê-la escolhido. Mussi respira o gênero musical sem deixar de lado fortes influências de Breakbeats, House, Electro, Garage e outros estilos. Para se ter uma dimensão da complexidade sonora de sua produção, ela é filha de pai instrumentista ouvinte de música clássica, cresceu brisando em Robin S e Technotronic na infância, quando dançava em aulas de Jazz.  Depois, colava nos rolês de Rock, Hip Hop, até se aprofundar no eletrônico graças a boate Lov.e, ícone da noite de São Paulo. Some a tudo isso intensas temporadas em sua terra natal, o Paraguai, onde aprendeu a discotecar junto de amigos integrantes do LPZ Records, nomes da sua agência de artistas sul americanos, a Alt Bookings. Toda essa miscelânea está impressa no DNA das faixas “Rising” e “Diving”, em que ela abre a roda e pisa forte com Techno noventista de ares four on the floor.

Ah, e qual foi o motivo da escolha dos nomes? “Pela atmosfera de cada uma, a ‘Rising’ tem um synth principal com notas que vão expandindo progressivamente, dando uma sensação de crescência, eu acho uma track bem legal para tocar no nascer do sol. E a ‘Diving’ é o oposto, ela tem um baixo decrescente, e um synth mais tenso, dá uma sensação de mergulho”. Aliás, foi difícil conseguir trocar ideia com Mussi devido à agenda movimentada por gigs internacionais. Como ela consegue aliar o trampo de DJ à produção musical, que inclui faixas nos selos Massa Records e LPZ Records? “Não sei (risos). Estava realmente exaustivo, eu dei uma pausa na [festa] Dûsk, deixando para fazer somente em ocasiões especiais e poucas vezes ao ano. Eu preferi focar nas demais atividades e tentar trabalhar para gerar mais conteúdo musical, no que estou focada agora, e menos eventos próprios”

Em comum, ambas têm o Techno como força-motriz em suas trajetórias, porém, foi a admiração de Amanda Mussi pelo trabalho de Lady Machine que fez ela transpassar o carinho da pista para produção conjunta.  “Eu sou fã da Camila [Lady Machine] desde 2004, eu ia nas raves no interior de São Paulo vê-la tocar, foi a primeira mulher que vi tocando Techno na minha vida, quando ela ela usava o nome DJ Kammy. Eu era muito fã! Mas a cena dessa época foi acabando e muitos DJs foram morar no exterior, inclusive, ela. Faz uns quatro anos que eu resolvi ir atrás dela e descobri que a Camila estava terminando os estudos de produção musical no Reino Unido, e tinha começado um programa de rádio na Noods. Então, eu me propus a ajudá-la a montar uma turnê quando ela quisesse vir ao Brasil. Desde então, ficamos em contato, ela me convidou para participar da rádio, e no ano passado, foi me ver na minha estreia do Berghain. Eu adoro a estética do selo, todas as tracks têm uma pegada hipnótica e enérgica, com melodias super bem trabalhadas e envolventes. O Decka e a The Lady Machine são artistas que admiro muito, além de toda a história que tenho com ela”.

Ser aplicado é sinônimo de diligente, e quando Camila fala a respeito de agir desta forma no processo da Unterwegs, ela afirma com propriedade de quem se aprimora para discotecar e produzir. “Eu perdi o interesse quando o Techno ficou estagnado. Veio a onda do Minimal por volta de 2005 e os anos seguintes resultaram em um período complicado pra quem tocava techno, principalmente no Brasil. Aos poucos eu fui me distanciando. Fiz um curso rápido de produção, que acabou resultando em mais cursos, até eu decidir largar tudo e cursar uma faculdade de engenharia de som na Inglaterra. Eu me foquei em aprender um outro lado da produção musical inclusive, sobre como gravar bandas e técnicas de mixagem em estúdio. Foi um período um pouco introspectivo, reflexivo. Mas eu aprendi muito. Quando me formei, voltei a me conectar com a comunidade Techno e vi que tinha mudado bastante, muitos artistas novos e música boa sendo lançada. O cenário foi renovado e isso me deu ânimo em voltar. Eu acabei me mudando da Inglaterra para Berlim pronta para voltar a tocar”.  Muito além de ser uma parceria, o EP simboliza a união de duas grandes mulheres do Techno, cuja atuação na cena brasileira aconteceu em épocas diferentes.

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