Resenhas

The Lone Bellow – Then Came the Morning

Segundo disco de banda do Brooklyn faz bonito na seara do Country Alternativo

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Ano: 2015
Selo: Descendant Records
# Faixas: 13
Estilos: Alt. Country, Country Rock, Folk Rock
Duração: 44:30min
Nota: 4.0
Produção: Aaron Dessner

Em princípio, a adoção do termo “Brooklyn Country Music” para definir a sonoridade de The Lone Bellow por seu líder, Zach Williams, seria um bom motivo para ter os pés atrás com a banda. Sabemos que a outrora violenta parte de Manhattan tem potencial “hypesco” equivalente a lugares como a Lapa carioca ou a Vila Madalena paulista e, verdade seja dita, nunca teve qualquer relação com a música Country. Mesmo assim, a estreia em disco, ocorrida há dois anos, foi saudada efusivamente pela imprensa especializada, incluindo prestigiosos veículos como a revista No Depression, autoridade isenta e renomada em termos de variações relevantes sobre os estilos que compõem a tal música Americana. Este segundo álbum, creiam, é ainda melhor.

Williams trouxe para a produção de Then Came The Morning o surpreendente Aaron Dessner, de The National, que está adquirindo fama e renome como produtor e descobridor de talentos. Sua função aqui foi justamente a de ampliar o espectro sonoro do grupo, trazendo, além de belas intervenções de sopros, cordas e vários acepipes sonoros, uma noção de conectividade com as linhagens mais relevantes da música Country’n’Folk. Sendo assim, há toques de baluartes como The Band, aprendizes eficientes como Ryan Adams e contemporâneos como The Lumineers. O resultado lembra os mais belos álbuns de Alt.Country da virada do milênio, quando o estilo sabia bem de onde vinham suas influências. Mesmo assim, não há qualquer resquício de nostalgia ou ranço, é música moderna e eficiente. Dessner deu especial enfoque ao talento de Williams, da bela baixista Kanene Pipkin e do guitarrista Brian Elmqvist na harmonização de coros, algo que já pode ser sentido logo na abertura do disco, com a faixa título. O efeito é semelhante à parte final da bela The Rescue Blues, canção de Ryan Adams, gravada em seu álbum de 2001, Gold. Then Came The Morning, a música, tem a declarada intenção de tentar livrar os pés do ouvinte da ação da gravidade, chegando a conseguir seu intento em alguns momentos.

A partir daí, o desfile está aberto. Fake Roses pega emprestado um tom empoeirado, com sua menção aos “Elvis’ postcards” e do entrelace entre violino e guitarra slide. Marietta vem com mais condução melancólica em meio a cellos e vocais dilacerados de Williams. Take My Love vem com loopings de bateria e aquele clima irritante de explosão de refrão prestes a acontecer. A próxima canção, Call To War, traz os belos vocais de Kanene, suaves e propensos a se confundir com a brisa do fim de tarde, que parece vir da simbiose entre guitarra e cordas. Watch Over Us, com letra de esperança e fé, tem vocais sofridos e instrumental esparso, que serve apenas para dar profundidade à narrativa. Diners substitui o clima contemplativo e ingressa por caminhos de trilha sonora de amor e saída à dois pela noite de algum lugar como aquela Memphis imemorial que habita a mente e o coração dos fãs do estilo. Heaven Don’t Call Me Home é o grande ponto de diferença aqui. É um Rockabilly endemoniado e incandescente, algo muito raro ou inexistente em termos de bandas novas. É canção de autoacusação, de enfrentamento, de dança e liberação de cargas negativas na pista de dança sob o efeito de alguns coquetéis de procedência duvidosa.

If You Don’t Love Me segue o cortejo, com levada mais invocada e guitarras mais rebimbolantes, dando passagem para a belíssima Telluride, toda contemplação, contida e com o olhar sobre a pradaria à espera da pessoa amada, que virá trazida pelos ventos. To The Woods segue pelo mesmo clima acústico/plácido, embicando na popíssima e cheia de bossa Cold As It Is, toda urbana e pinguça, pra chegar ao final do álbum com a solene e silenciosa I Let You Go, violão e voz, olhando pelo vidro da janela na hora em que a chuva começa a cair.

O segundo álbum de The Lone Bellow é cheio de imagens, alternativas, citações e alternância de climas. Parece uma banda de velhos lobos do asfalto ou de sujeitos com corações despedaçados, viajando de Greyhound pela América que já não existe mais. Apesar das remissões e relevância de influências, torno a dizer: é música moderna, atual e cheia de pujança. Vão ouvir, vão.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.