Resenhas

The Mountain Goats – Goths

Banda norte-americana faz disco conceitual sobre o Pós-Punk

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Ano: 2017
Selo: Merge
# Faixas: 12
Estilos: Rock Alternativo, Pop Alternativo
Duração: 55:02
Nota: 4.0
Produção: Brandon Eggleston

É possível dizer sem medo de exagerar que Goths, mais recente trabalho na extensa carreira de The Mountain Goats, é uma pequena obra prima. Você pode curti-lo o que ele é: um álbum conceitual sobre a cena gótica oitentista, algo bem ambicioso e plenamente alcançado, mas também pode entendê-lo como um excelente trabalho sobre as modalidades clássicas de música Pop, atualmente em lamentável desuso. Somem as programações de bateria e as divas dançantes eletrônicas de procedência muitas vezes duvidosa e vem à tona uma música de ascendência anglo-americana, cuja origem remonta ao surgimento da própria música popular pós-The Beatles, que dominou as ondas do rádio nas décadas seguintes e que hoje, pasme, surge apenas como excentricidade na obra de bandas e músicos com muito talento. É o caso aqui.

De fato, o disco é um compêndio de canções sobre pessoas, lugares e bandas da chamada “cena gótica” dos anos 1980, que por aqui recebeu o questionável nome de “dark”. Nos Estados Unidos ela foi bastante forte e muita gente da geração do cantor e compositor John Darnielle, a mente pensante do grupo, participou dela. Goths é um retrato afetuoso de lembranças interessantes e afetuosas, com menção de nomes de pessoas, grupos importantes daqueles tempos e um notável senso de melodia, contendo, além disso tudo, uma proposta bem sutil: falar disso tudo sem cair na armadilha de fazer um feixe de canções esteticamente semelhantes ao objeto das lembranças. Sendo assim, não há nada que tenha qualquer relação com o Pós-Punk oitentista está presente, tendo a banda escolhido, de forma inédita em sua carreira, os caminhos sensacionais do Pop sofisticado, representado hoje em dia por gente ótima como Josh Rouse e na época por Prefab Sprout.

Esta decisão dividiu as opiniões na imprensa especializada lá fora. Estão confusos com a ironia óbvia da banda ao tratar a cena gótica de outra forma, abusando de um senso de humor acima da média. Um aviso: ignorem se virem algum crítico reclamando disso, porque trata-se do grande trunfo de Goths. A opção eleva o padrão da memória afetuosa, conferindo um tratamento elegantíssimo e uma dose de autoironia muito bem vinda. Além disso, mais que pisar no terreno da ironia, o grupo exercita uma forma muito bem elaborada de música Pop, oferecendo ao ouvinte um feixe de 12 canções extremamente bem feitas e com a marra de não usar guitarras ou correções de estúdio de qualquer tipo, preservando um ar de espontaneidade pouco comum hoje em dia. Calcadas em pianos, bateria, sintetizadores e percussão, as faixas têm brilho próprio.

Há vários destaques por aqui. A ótima Andrew Eldritch Is Moving Back To Leeds fala sobre o vocalista de uma das bandas mais importantes daquela cena, The Sisters Of Mercy, que chegou a ter grande base de fãs americanos. A levada é a de uma balada que tangencia ao mesmo tempo o Rock Alternativo noventista, o Folk e o Country, tudo com muita gentileza e arranjos de sopro que pegam o ouvinte com elegância. Outro momento de destaque é We Do It Different In The West Coast, com um trabalho de contrabaixo muito interessante e os vocais suaves de Darnielle soando completamente no lugar. A letra vai falando das diferenças entre fãs e bandas americanas de então, com ênfase no pessoal da Costa Oeste, lar do Goats. Unicorn Tolerance é o momento mais Rock do álbum, com uma levada dançantezinha, enquanto Stench The Unburied explora texturas jazzísticas leves e exercita o lado compositor/arranjador de Darnielle e a singela Paid In Cocaine se vale de mais arranjos de sopros para evocar estações de rádio e buracos enfumaçados nos quais as pessoas se reuniam para ver bandas iniciantes.

Goths é um álbum raro e cheio de atributos. Tem conceito, composição, letras, ótimos músicos e uma audácia estética pouco comum hoje em dia. É erudito na medida e Pop o suficiente para fisgar os ouvintes mais curiosos e dispostos a conhecer suas entranhas. Altamente recomendado.

(Goths em uma música: Stench Of The Unburied)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.