Resenhas

The New Basement Tapes – Lost On The River

Disco colaborativo recria canções perdidas de Bob Dylan com belíssimo resultado

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Ano: 2014
Selo: Island
# Faixas: 20
Estilos: Rock, Folk, Alt.Country
Duração: 73:44min
Nota: 4.0
Produção: T-Bone Burnett

Façamos de conta que Bob Dylan tem 26 anos e um punhado de letras e busca uma virada em sua carreira. Ele faz seus contatos, consulta produtores e executivos de gravadora e pensa que pode ser interessante um álbum colaborativo, no qual o bardo entraria seria parte de uma coletividade. T-Bone Burnett, um dos pilotos de estúdio mais conceituados na tradução das sonoridades americanas mais clássicas para a modernidade é chamado por Dylan para tocar o projeto e decide recrutar uma galera para o projeto. Vem um veterano fã das composições mais clássicas do velho Bob, Elvis Costello. Além dele, Marcus Mumford (de Mumford And Sons), Jim James (My Morning Jacket), Taylor Goldsmith (Dawes) e Rihannon Giddens (Carolina Chocolate Drops) completam o time. É fato que essa galera é devedora das fusões imemoriais que Dylan empreende desde o início da carreira e poderá transitar com desenvoltura nos terrenos das estradas de terra a que o projeto se propõe. A banda então é batizada de The New Basement Tapes e o disco, Lost On The River.

O primeiro parágrafo é uma semi-verdade. Burnett foi chamado para chefiar um processo semelhante ao que Wilco e Billy Bragg se envolveram há quinze anos, quando foram recrutados para musicar velhas letras do trovador Folk-socialista Woody Guthrie, não por coincidência, ídolo maior do próprio Bob Dylan. Mermaid Avenue teve três volumes e rendeu belíssimas canções e dissipou várias névoas na carreira de Woody. É o que se espera de Lost On The River, que traz 20 letras inéditas de Dylan, escritas no famoso e misterioso período em que ele se recolheu em Woodstock após um acidente de moto. Várias especulações foram feitas, até que o Bob estaria morto, mas suspeita-se que ele estava apenas dando um tempo de sua recém-conquistada fama de Popstar ideológico daquele 1967. Enquanto esteve sumido (cerca de um ano), Dylan compôs várias canções com seus músicos de apoio, que atendiam pelo singelo nome de The Band. O resultado foi lançado em 1975 com o nome The Basement Tapes e pirateado de todos os jeitos, uma vez que rumores davam conta da produção ter ultrapassado as cem faixas, o que significava bem mais que as 24 contidas no álbum duplo. Muito se disse, pouco se soube até este ano, quando Bob decidiu finalmente lançar tudo o que havia gravado e revirar o baú em busca das letras escritas à mão, que ficaram sem música. O que nos leva até este precioso disco.

É preciso dizer que Burnett ergueu um ambiente sonoro condizente com a mutação que Dylan vivia no período, indo do Folk inicial e do primeiro flerte com a guitarra elétrica, para abraçar o Country e adicionar inflexões Blues a seu som. A primeira faixa, Down On The Bottom, com Jim James nos vocais, já vai por este caminho, constituindo-se em verdadeiro híbrido mulato de espeluncas empoeiradas. A canção seguinte, Married To My Hack, com vocais de Costello e Giddens, é Blues matreiro e espiritual, enquanto Kansas City, com participação inusitada de Johnny Depp nas guitarras, tem andamento aerodinâmico e tom de sol poente sobre o casario tradicional da cidade sulista. Spanish Mary, com introdução misteriosa e com melodia insinuante, tem vocais emocionados de Rihannon Giddens, mostrando que tem potencial para vôos mais altos. Pianos e doçura marcam Liberty Street, vocais arrepiantes, mudanças de andamento e pujança credenciam Nothing to It. É possíver ver o Dylan contador de histórias em Golden Tom – Silver Judas, com performance vocal bem urdida por Costello e Duncan And Jimmy, com Giddens planando sobre uma paisagem cheia de banjos e pequenas explosões instrumentais.

A malandragem do sujeito que vai amadurecendo surge na matreira When I Get My Hands On You, com a dupla Goldsmith/Mumford mandando bem, mas com arranjo que abre mão das possibilidades sonoras em favor da monotonia. Já não podemos dizer isso de Florida Key, que tem dedilhado de violões e letra de rito de passagem, novamente com vocais doces de Taylor Goldsmith. Contos do caminho surgem em Hidee Hidee Ho #11 e Lost In The River #12, a cargo de Costello e James, respectivamente e ambas com iluminado arranjo de cordas e pianos que servem de enfeite para uma eficiente argamassa de baixo e bateria. O Rock de guitarras aparece em Stranger, que não faria feio no novo álbum de Ryan Adams, enquanto Card Shark vem com uma simpática história de pescadores e vocais de Goldsmith. Quick Like A Flag é passarela para o vocal fantasmagórico de James assumir uma mutação dylanesca inesperada, conduzindo a bela melodia em meio a rabecas e guitarras. Hidee Hidee Ho #16 é canção de mulher desesperada no meio da noite, talvez chegando, talvez fugindo, enquanto Diamond Ring é conto de amor e perda tendo a própria América como cenário e atriz. The Whistle Is Blowing parece cantada pelo próprio Dylan aos 26 anos, mas os dados insistem em dizer que Mumford está no comando por aqui. O ritmo é lento e contemplativo, outra canção ao por do sol. Six Months In Kansas City traz a voz ímpar de Costello logo à frente e abre passagem para a última canção do álbum, Lost On The River #20, espiritual, fantasmagórica, bela.

Bob Dylan está ativo aos 74 anos e mostra ser um sujeito irriquieto e surpreendente ao ceder as letras para o projeto, além de dar liberdade aos músicos para compor as melodias e criarem um produto final no qual seu nome não está diretamente associado ou estampado na capa. Ele poderia ter assumido o controle, musicado suas letras e se saído com um disco com altíssimo potencial para as boas vendas. Testemunha da história, Dylan deixa seus pupilos o reinventarem e reverenciarem, recebendo uma inusitada homenagem ainda em vida. O resultado é belo, bem feito, dedicado e merecedor de sua atenção, leitor/a. Corra atrás.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.