Resenhas

The New Eves – The New Eve is Rising

Entre poesias e declamações, estreia do quarto inglês funde punk e barroco de forma original e envolvente

Loading

Ano: 2025
Selo: Transgressive Records Ltd.
# Faixas: 9
Estilos: Punk, Art Rock
Duração: 39'
Produção: Joe Jones, Jack Ogborne

Embora o quarteto de Brighton The New Eves, formado por Violet Farrer, Nina Winder-Lind, Kate Mager e Ella Oona Russell, tenha uma estética – e portanto, uma mensagem – muito clara, seu som está muito longe de ser óbvio.

O primeiro olhar para o disco de estreia do grupo, The New Eve is Rising, seja na própria capa, nas fotos de divulgação ou nos clipes, revela um grupo de mulheres vestidas com roupas brancas, manchadas de vermelho, caminhando por regiões rurais do interior da Inglaterra. A sensação que fica é a de algo próximo do terror, um pouco “bruxa na floresta”, um pouco Midsommar.

E isso se traduz no som através de uma conjunção muito interessante do punk e de instrumentos mais barrocos. Este ponto de inflexão, que traz uma sensação de novidade, substitui o protagonismo da guitarra elétrica pelo violino, violoncelo e flauta, o que deixa tudo com uma cara de música de câmara, ou melhor ainda, de uma música popular britânica que fugiu às amarras do classicismo burguês.

Por isso, The New Eve Is Rising é marcado por uma sensação de revolta feminina em ambientes opressores. A pegada é punk, mas há uma inclinação forte para a poesia e para a declamação e, mais do que isso, para uma noção muito clara de que uma mulher não-domesticada mete medo na sociedade.

O repertório abre com um manifesto autointitulado. Nele, ouvimos uma declamação: “The New Eve is of earth / Granite, ochre, magma, dirt / All the bones in her body are holy / All the stones in her pockets are homely” (algo como: “A Nova Eva é de terra / Granito, ocre, magma, sujeira / Todos os ossos do seu corpo são sagrados / Todas as pedras nos seus bolsos são caseiras”). De acordo com a banda,o poema foi escrito por Nina na cabana de sua família nas montanhas suecas. É sobre nós. É para os nossos eus mais jovens. É sobre todos. É para qualquer um. É uma canção para ser tocada bem alto e para correr, ou assaltar um banco, marchar, dançar e rir. De certa forma, é uma canção de amor. É uma ode. E um grito de guerra glorioso”.

Apesar de haver uma insistência do grupo em puxar uma associação com o Velvet Underground, a estratégia parece se tratar mais de um pitch inteligente de assessoria do que um fato, porque há muitas outras iterações punks que vêm à cabeça antes do clássico underground americano ao ouvir esse álbum. Na verdade, as The New Eves parecem bastante alinhadas com uma nova onda inglesa, exemplificada pela nova formação de Black Country, New Road, Ugly ou caroline.

Como quer que seja, o mais interessante é que o braço de referências do quarteto alcança longe. Embora esteja alinhada a vertentes “tradicionais” que vêm do passado, a habilidade da banda em forjar algo diferente as colocam como um ponto focal no cenário de novos nomes desse ano.

(The New Eve is Rising em uma faixa: “Cow Song”)

Loading

ARTISTA: The New Eves

Autor:

é músico e escreve sobre arte