Resenhas

The Orwells: Terrible Human Beings

Quinteto de Chicago faz disco de Pós-Grunge hoje

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Ano: 2017
Selo: Atlantic
# Faixas: 13
Estilos: Rock Alternativo, Rock, Pós-Grunge
Duração: 38:23
Nota: 3.0
Produção: Jim Abbiss

Se estivéssemos em 1996, esta resenha começaria assim:

E Chicago também diz “presente” ao chamado Pós-Grunge. Seguindo as pegadas de bandas como Stone Temple Pilots e Smashing Pumpkins, o quinteto The Orwells chega para mostrar que também tem fluência nessa coisa de colocar guitarras pesadinhas e vocais rasgados em suas canções. Este Terrible Human Beigns é seu terceiro trabalho e os sujeitos mostram que têm o elemento chave para fazer sucesso, muito além de poses e sonoridades: boas canções. Cada uma das treze faixas do álbum tem gancho, melodia e boas soluções, fato ajudado pelo bom produtor Jim Abbiss, que lapida a pegada do grupo e coloca tudo com boa clareza de propósito.

Pois bem, estamos 21 anos no futuro deste primeiro parágrafo, certo, pessoal? A verdade é que ele não seria nada diferente hoje, uma vez que a proposta de The Orwells é, sim, revisitar sem pudores este momento posterior ao estouro do flanelão de Seattle, em seu aspecto mais acessível às paradas. E aí está o perigo: a nostalgia não surge na bandeca de garagem que deseja emular Nirvana, mas nos sujeitos bem produzidos que tentam decalcar formações da segunda prateleira do Grunge, caso do mencionado Stone Temple Pilots e de outras de prateleiras ainda mais inferiores, como Deep Blue Something e Marcy’s Playground. Gente que teve, no máximo, um hit e se perdeu na poeira dessa estrada triste. Não que este álbum seja ruim, pelo contrário, só há boas canções aqui, mas a sonoridade perpetrada pelo quinteto é assumidamente retrô. Nada errado, mas não estamos acostumados a balizar nosso contador temporal numa época tão próxima da nossa, né?

Como dissemos, as canções são o ponto forte, frutos de boa safra com pegada Pop inestimável. Há momentos em que o grupo tenta algo com mais sustância, próximo de Pixies, caso da bandeirosa Black Francis, que tem guitarras no mesmo timbre dos elfos de Boston e vocais doentios na mesma medida. E funciona a danada, toda calcada em canto/resposta. Logo em seguida vem o outro extremo, uma faixa que poderia estar na trilha sonora do filme The Wonders, outro ícone de sucesso noventista. Apelo Pop, olharzinho saudoso para bandas da Invasão Britânica dos anos 1960 e inegável apelo melódico no refrão e por todos os lados.

Dentro do espectro Pós-Grunge, um rótulo que, por si, era bastante abrangente na época e significava quase qualquer banda com guitarras e vocais “com atitude”, surgidas após 1991/92, The Orwells surgem com apreço pela diversidade. Canções mais nervosas, como Buddy, cheia de guitarras, convivem com espécimes mais melódicos, caso de Hippie Soldier, que decalca o clima algo que poderia ser um lado B de David Bowie do início dos anos 1980, ou, mais precisamente, uma faixa de Stone Temple Pilots safra 2010. Heavy Head tem guitarras apitando, Ring Pop tem boa linha melódica, Last Call (Go Home) tem cheiro de Powerpop e a última canção, a psicodélica Double Feature exibe uma duração além dos sete minutos, com mudanças de clima, melodias, andamentos, tudo como costumava ser.

Não dá pra condenar o quinteto, no máximo puxar suas orelhas pela absoluta falta de originalidade. Quando ouvimos as canções, no entanto, dá pra ver que eles têm a manha. Vamos dar o tradicional voto de confiança e ver o que pode acontecer no próximo álbum.

(Terrible Human Beings em uma música: Black Francis)

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BOM PARA QUEM OUVE: Ty Segall, Pixies, Wavves
ARTISTA: The Orwells

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.