Resenhas

The Preatures – Girlhood

Banda australiana muda de prateleira com novo álbum

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Ano: 2017
Selo: Universal Music
# Faixas: 11
Estilos: Rock Alternativo, Pop Alternativo
Duração: 43'
Nota: 4.0
Produção: Jack Moffitt, Izzi Manfredi

Estou ouvindo este bom Girlhood, segundo álbum do quarteto australiano The Preatures, tentando lembrar de qual trilha sonora de filme dirigido por John Hughes a banda participou. Logo em seguida me dou conta de que este lapso temporal não é possível, principalmente porque o termo “trilhas sonoras de John Hughes” é uma das marcas registradas dos anos 1980. Bandas moderninhas, alternativas, totalmente Rock e muito sintonizadas com paradas de sucesso e boas críticas especializadas eram figurinhas fáceis no conteúdo musical de filmes como Clube dos Cinco, Gatinhas de Gatões, Garota de Rosa Shocking e o mais relevante deles: Curtindo A Vida Adoidado. Gente como The Smiths, Dream Academy, Psychedelic Furs, Simple Minds, a lista é bem grande. É exatamente essa impressão que me assalta enquanto ouço as onze faixas do disco. E tenho que me lembrar que é impossível, que estamos mais de 30 anos no futuro e blá blá blá.

No caso de The Preatures, a liderança é dividida pelo guitarrista e produtor Jack Moffitt e a cantora (e também guitarrista) Izzi Manfredi. A receita sonora é baseada nas bandas de filmes de John Hughes e nas formações que faziam uma versão mais suja do que se entendia por New Wave na virada dos anos 1970/80, especialmente The Pretenders. Só que Izzi não tem qualquer vontade de parecer uma nova Chrissie Hynde, pelo contrário, sua beleza e talento vão por um caminho que tem paralelo musical justamente em outra banda muito bem sucedida na mesma época: Fleetwood Mac. Ao contrário de soar conservadora e mera repetidora desta sonoridade, a banda se vale do mesmo expediente de artistas revisionistas, temperando com letras totalmente 2017, as levadas harmoniosas de guitarra/baixo e bateria que saem da mente de Moffitt. Lembra o trio americano HAIM, porém sem o amor que este possui pelo R&B dos anos 1990. O negócio por aqui é Rock. Mas com doçura.

Essa suavidade (relativa, porque há momentos de certo peso) se deve ao carisma de Izzi Manfredi. Com boa voz e uma beleza com elementos pós-adolescentes como principais características, a menina tem parcela importante na receita sonora da banda. O feixe de onze canções comprova tudo isso, refletindo bem as intenções do grupo, que pode estar à beira de uma mudança significativa de prateleira na estante do Rock Pop mundial. É fácil gostar deles, as músicas fluem facilmente. A abertura com a faixa-título tem pouco mais de dois minutos e meio, levada acelerada, guitarras cortantes e bem tocadas, vocais de apoio surpreendentemente bons e suscita aquela dancinha puladinha que permaneceu atemporal. Yanada, terceira faixa, é um ótimo exemplo de como a influência de Fleetwood Mac se faz sentir por aqui, com Izzi soando como uma versão renovada e leve de Stevie Nicks. A levada da canção é totalmente fluida, cheia de guitarras e violões, tudo encadeado e belo.

Faixas como Magick e Your Fan cuidam daquele item que vocês já sabem: para fazer sucesso no mundo da música popular, em qualquer época, é preciso ser fluente no idioma das baladas. The Preatures mostra desenvoltura de gente grande ao passar por estes caminhos tristonhos, falando de saudade, carência e imaginando um futuro melhor, em meio a arranjos simples de teclados e guitarras, nos quais a voz de Izzi soa intencionalmente pequena e frágil, cumprindo seu papel. Faixas como Lip Balm, Mess It Up e Nite Machine (esta última poderia ser até de Madonna circa 1985) mostram que a tônica por aqui é mostrar um disco mais calcado em melodias e faixas mais rápidas e menos contemplativas. Mesmo assim, o encerramento se dá com uma balada pianística e sincera, com Izzi declamendo versos em italiano, Something New.

Como falamos, este é o momento em que The Preatures podem estar alçando voo rumo a um sucesso ainda não alcançado ou imaginado. Eles têm tudo para cair nas graças do fã de boa música, refrescando e renovando as preferências neste terreno meio carente que é o Pop Rock em 2017. Boa pedida.

(Girlhood em uma música: Yanada**)

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BOM PARA QUEM OUVE: Fleetwood Mac, Haim, Spoon
ARTISTA: The Preatures

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.