Resenhas

The Psychedelic Furs – Made Of Rain

Quase 30 anos depois, banda inglesa retorna com disco de inéditas que, embora colha referências temporais distintas, soa autêntico

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Ano: 2020
Selo: Cooking Vinyl
# Faixas: 12
Estilos: Indie Rock, Shoegaze
Duração: 38'
Produção: Richard Fortus e The Psychedelic Furs

É provável que The Psychedelic Furs não seja o primeiro nome que vem à cabeça quando pensamos nos anos 1980. Porém, um olhar aprofundado sobre a curta carreira da banda traz à tona traços extremamente marcantes desta década. O nome do grupo foi criado como uma tentativa de se afastar do legado Punk de escrachar os anos 1960, evidenciando o termo psychedelic. Mas mesmo assim, a origem do grupo no final da década de 1970, em pleno auge do Punk Rock e repleta de um espírito inglês DIY (do-it-yourself) e proto-Indie, propiciou a consolidação de uma sonoridade extremamente autêntica, que mistura um pouco de cada década.

Havia um pouco do apelo Pop da música comercial sessentista, misturada a à agressividade Punk, além de uma timbragem reverberada e única dos anos 1980. Um tipo de música que facilmente encontrou sua audiência e que foi até trilha sonora para o filme A Garota de Rosa Shocking, de John Hughes. Contudo, manter um espírito Punk pleno, juntamente a um controle criativo excessivo das gravadoras era uma tarefa insustentável, fato que culminou no triste término da banda em 1992.

O grupo retornou no começo dos anos 2000, porém de uma forma mais “espiritual”, fazendo turnês comemorativas e divulgando trabalhos solos de seus respectivos integrantes – que se alternavam entre os originais e alguns novos contratados. Porém, 20 anos depois, a banda finalmente colocou no mundo Made Of Rain, disco que retoma uma sonoridade muito típica dos anos 80/90 e ainda amplia o leque sonoro a partir referências colhidas neste segundo momento de atividades da banda. O intervalo de quase 30 anos do último registro de The Psychedelic Furs trouxe uma maturação de muitas ideias repreendidas pelas gravadoras anteriormente – ideias nas quais percebemos, hoje, uma antecipação de gêneros que ainda se consolidariam, como Shoegaze e Dream Pop.

Made Of Rain é uma libertação criativa para os membros da banda. Richard Butler, líder do grupo, comentou que foram precisos 29 anos para que o espírito DIY se consolidasse de forma plena. Esse é um disco que coloca autenticidade do grupo em primeiro lugar. Aqui, ouvimos claramente uma banda influenciada por diferentes décadas e que, por meio de um trabalho minucioso de curadoria sonora, coloca em prática uma fusão azeitada destes elementos, sem soar confuso ou embolado. Temos um Shoegaze, que é misturado com um pouco de Psicodelia e um Punk Rock que aceita interferências do Pop comercial. Até mesmo nuances de uma sonoridade gótica encontram espaço para se alojar entre os sentimentos alegres e eufóricos do Dream Pop.

O purismo cede espaço para um formato aberto a novas possibilidades e este é o grande trunfo de Made Of Rain. As diferentes referências estão espalhadas por entre as 12 faixas do disco. “Don’t Believe”, por exemplo, bebe forte do Shoegaze Ride/Slowdive, colocando o ouvinte em um mar de reverbs para se afogar. A balada pé-na-bunda é brilhantemente representada em “This’ll Never Be Like Love”, híbrido de Dream Pop com toque pontual de saxofone à la Kenny G – sem ser brega demais, nem muito sério. “No-one” tem aquele sentimento Brit Pop Oasis/Blur em seu cerne, mas não cede a essa vivacidade plena, misturando um pouco de The Cure gótico em sua receita. O aspecto fantasmagórico continua em “Hide The Medicine”, uma canção que ecoa The Smiths por meio de melodiosidade e sinceridade de violões tristões. Por fim, “Stars” é o ponto auge da psicodelia, encerrando o trabalho no ponto máximo de voo – e nos impulsionando até o infinito.

Foram precisos quase 29 anos para que um disco como Made Of Air fosse construído. Um tempo recompensado por um registro que não se limita ao forte legado criado nos anos 1980, tampouco recusa a inventividade de gêneros musicais posteriores. The Psychedelic Furs traz ao mundo um organismo vivo que vê em cada década uma potencialidade. Uma série de artifícios para produzir uma sonoridade que, apesar de cheia de referências, é autêntica em sua origem. Um disco no qual é possível sentir a matéria do tempo pelos acordes infinitos de guitarra.

(Made Of Air em uma faixa: “Stars”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.