Resenhas

The River Fane – Takes Forever

Banda irlandesa estreia com desenvoltura no terreno do Folk Rock

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Ano: 2015
Selo: Independente
# Faixas: 8
Estilos: Folk Rock, Rock Alternativo, Folk Alternativo
Duração: 53:01
Nota: 4.0
Produção: The River Fane, Ivan Jackman

À primeira audição, Takes Forever, estreia do quarteto irlandês The River Fane, pode confundir os mais afoitos, que podem pensar que se trata de mais uma dessas bandas que evocam paisagens rurais como símbolo de uma vida mais contemplativa, lenta e abrangente. Como vivemos num mundo cada vez mais rápido e competitivo, imagens desse tipo são signos poderosos – ainda que pareçam sutis – de desagravo a “tudo o que aí está”. Pois bem, este não é o caso do álbum, uma vez que há elementos muito mais complexos que um abraço a este idealizado Shangri-lá verdejante, hippie tardio. A coisa aqui está muito mais para um grupo que utiliza inteligentemente as referências Folk atemporais como ponto de partida numa receita poderosa de boas canções e ambiência cinematográfica.

Derren Dempsey, Johnny Fox, Neil Paltridge e Oisin Trench têm noção do que estão fazendo. Acrescentam a esta matriz Folk algo de urbano, de Progressivo, de distópico, soando agradavelmente surpreendente em várias passagens. Todas as melodias têm acento Pop destacado, mas isso não se insinua em refrãos grudentos ou vocais previsíveis e sim na beleza das progressões, do jogo de vozes aqui e ali e de algumas sutilezas que pipocam ao longo do caminho de oito canções. Esta tendência para a beleza melódica é temperada por um conceito de não se prender a padrões, por exemplo, da fórmula de três, quatro minutos de duração ou um instrumental banal, sobrando espaço para experimentações aqui e ali. Na verdade, Takes Forever é muito bem pensado, dosado e tem uma realização pra lá de interessante.

Logo na abertura, com NOW! That’s What I Call Untitled 3, já se nota a queda para uma forma peculiar de humor, trocadilhando com a série de compilações de hits inglesa, ainda muito popular lá na Velha Ilha. A canção, que nada tem a ver com isso, é uma progressão lenta e cheia de imagens, num Blues Folk com interrupções e ritmo quebrado. Hollow Ground, logo em seguida, é uma plácida canção com instrumental singelo e cheio de barulhinhos interessantes, além de ostentar uma bateria sutilíssima, mas marcante, além de se espalhar em seus mais de seis minutos de duração sem que pareça tão longa. Lembra algo do fim dos anos 1990, no melhor sentido do termo, com tecladinho ao final teimando em parecer com alguma progressão de canção de Weezer. Water é pra ser ouvida à noite, de frente para o mar (sem trocadilho com o título da música) ou qualquer outra acachapante manifestação da natureza, dessas que nos façam parecer muito pequenos. É sussurrante e vem lá do fundo do lado negro da Força que todos carregamos.

Way Home tem pianos e uma levada que poderia parecer com alguma das canções mais populares de gente como R.E.M., mas tal semelhança surge apenas na fluida progressão de violão/guitarra/piano, todos em seus devidos lugares e jogando coletivamente a favor. Um clima de contemplação de paisagem urbana noturna pela janela do alto do prédio surge logo nos primeiros acordes de Loose Movements, algo de reinvenção da Bossa Nova, algo que vá mais além, enquanto a canção se insinua lentamente pelos ouvidos. Dá a sensação plena de urbanidade, daquela participação involuntária nos rumos e devaneios da cidade, algo muito peculiar. What’s Pesto segue por caminho semelhante mas com referencial agridoce e mais pastoril, seja na introdução de violão dedilhado no meio da noite, seja nos vocais sentidos que vem e vão.

As duas canções finais são surpreendentes. Project La Bamba é diferente de todo o restante do álbum, com bateria quebrada, teclado que emula melodia de realejo e este adorável título que pode acenar para o fato da canção ostentar certa, digamos, malemolência em relação às outras, algo que, em hipótese alguma, significa o uso do termo dançante, mas uma certa leveza/alegria que terminam como artigos intencionalmente raros. O fim chega com os mais de 13 minutos de Where The Heart Connects inapelavelmente viajante e grandiosa em seus acordes soturnos, parecendo demais com algo feito por Sun Kil Moon ou American Music Club.

The River Fane se espalha confortavelmente neste seu primeiro álbum de canções. Suas influências credenciam a banda para alta consideração e as realizações aqui são muito interessantes.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.