Resenhas

The Strokes – Comedown Machine

Disco se apresenta ainda mais “experimental” e versátil que “Angles”, porém com com pouca sinergia e coesão em suas faixas – e este é seu maior problema

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Ano: 2013
Selo: RCA
# Faixas: 11
Estilos: Indie Rock, Indie Pop
Duração: 37:49
Nota: 2.5
SoundCloud: /tracks/76331890
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Fcomedown-machine%2Fi

É minimante curioso que The Strokes, uma banda apontada como a grande salvadora de de um estilo, possa ser tão refutada dez anos depois de receber este selo. Certamente, não foi a pretensão desses cinco garotos residentes em Nova York ter seu som eleito como o bastião do Rock do novo século ou como o baluarte de um estilo que muitos diziam estar em decadência desde a década passada. Mas, no começo dos anos 2000, tudo aquilo soava tão fresco e inovador, principalmente para quem começava ali sua jornada pela música, que esta atribuição pela mídia e público aconteceu.

Porém, Julian Casablancas e sua turma nunca foram exatamente originais e isso se explica pela fórmula criada a partir de referências dos anos 60 e 70 que dominaram seus primeiros álbuns. A qualidade do grupo em compor boas melodias e utiliza-las de maneira crua, aliada a sua lírica amplamente dissociável entre o público jovem e a energia que colocavam em tudo isso foram os ingredientes perfeitos para que esses nova-iorquinos fossem postos em um pedestal e idolatrados como o símbolo de uma nova geração. Bons discos foram produzidos pelo quinteto e isso é inegável, mas parece que se tornar extremante popular por criar um tipo de som tão icônico foi sua “ruína” – o que aos olhos dos fãs os impossibilitava de seguir um rumo diferente.

Esta sonoridade que foi posta à prova em 2001, com o ótimo Is This It, foi novamente encarada em 2003, em Room On Fire. Poucas mudanças se viam desde seu debut, talvez a intensificação de alguns aspectos e alguns complementos no teor Pop da obra, mas ainda assim bem sutis. 2006 marcou o início da mudança, ainda que amplamente aceita e comemorada pelos fãs que insistiam na imutabilidade sonora de um grupo que desde então mostrava querer se expandir para outros lados. Em First Impressions of Earth, já se notava o uso dos sintetizadores, mas como coadjuvantes, como elementos que ajudavam o quinteto a criar algo que ultrapassasse a simplicidade garageira vista em seus discos anteriores, mas que ainda assim não traziam toda a atenção para si.

Angles, lançado após um turbulento período, que além do hiato não declarado também contou com trabalhos solos de Casablancas (apontado como caminho seguido naquela obra) e Albert Hammond Jr. (que basicamente continuava a fórmula elaborada pela banda), foi, de fato, o ponto principal dessa metamorfose. A cisão com sua sonoridade anterior que se deu nesta obra acabou por dividir também seu público. O principal motivo para isto foi a mudança ou, na verdade, a incapacidade de muitos em aceitá-la. Sonoridade, trejeitos e idiossincrasias que definiram uma era não estavam mais presentes no som do grupo e até mesmo para fãs de longa data isso foi inaceitável.

Não querendo ser o advogado do diabo, mas já o sendo, Angles foi o primeiro disco em que, desde seu debut, o grupo se arriscou em tentar criar algo que saísse do molde que o aprisionou durante tantos anos. Em Comedown Machine, o quinteto busca mudar novamente a direção de seu som e explorar ainda mais essa nova sonoridade, porém parece não acertar tanto nesta nova “fórmula”. Apesar desta tentativa de soar fresco, algumas faixas podem criar grandes paralelos com uma das suas épocas passadas ou com projetos solos de seus integrantes.

Como uma espécie de extensão de Angles, a faixa de abertura, Tap Out, carrega bastante da daquela aura oitentista e dançante (principalmente vindas de estilos New Wave e Synthpop). Ela introduz também um dos grandes pontos negativos do disco: os vocais em falsete de Julian. Sua voz, quando atinge esses timbres agudos, perde totalmente sua força, chegando ao ponto de às vezes soar ridículo (caso de One Way Trigger, Chances e Call It Fate Call It Karma).

Mas esse não é o único problema de Comedown Machine. O single All The Time, por exemplo, apela ao “Strokes clássico”, criando de certa forma um autoplágio. Ele faz os três minutos mais nostálgicos deste álbum e faz isso apresentando um Indie Rock cru, guiado pelas guitarras e com a assinatura vocal de Casablancas. Ainda que possa agradar os fãs mais antigos, nada de novo ou realmente interessante aparece por aqui. Já One Way Trigger, outro single, cria algo que foge completamente do convencional. Com mais acertos do que erros, ela abusa dos sintetizadores, vocais agudos e energia, em uma música que ousa em criar algo que saia da conhecida fórmula e é sem dúvida um dos momentos mais divertidos de Comedown Machine.

Assim como Tap Out, Welcome To Japan traz os mesmos contornos oitentistas e dançantes, guiados principalmente por guitarras suingadas e uma batida extremamente contagiante, quase algo vindo da Disco. 80’s Comedown Machine, por sua vez, apresenta um momento sereno, que tenta explorar a interação entre voz e sintetizadores, como uma canção de Dream Pop. Mas, a falta de familiaridade da banda com o estilo gera uma faixa rasa e que se torna monótona em seus quase cinco minutos. Já 50 50, vai para o lodo oposto, sendo, talvez, a faixa mais próxima do Punk que o grupo já lançou até hoje. Ela remete aos tempos de Is This It, mas adiciona um tanto de ímpeto a sonoridade daquela época.

Mais uma vez se aproximando da New Age (e principalmente do som de Phrazes For The Young), Slow Animals soa mais como uma sobra do disco solo de Casablancas, do que algo realmente novo. Partners in Crime segue o mesmo caminho de sua antecessora, porém apostando em batidas mais acentuadas e na presença maior dos sintetizadores. Outra vez usando o Dream Pop como guia, Chances é construída pelos sintetizares e batidas mecanizadas. Mais uma vez soltando seus falsetes, Julian consegue arruinar uma canção que apresenta boas letras (e talvez seja o único elemento realmente consistente deste álbum).

O Synthpop Happy Ending é talvez o rumo mais Pop não só desta obra, mas como da carreira do quinteto. As linhas de sintetizadores comandam a faixa enquanto o duo de guitarras cria os riffs à la Strokes, principalmente no refrão. A última surpresa (e infelizmente negativa) fica por conta de Call It Fate Call It Karma, que fecha o álbum em uma espécie de Jazz contemporâneo, em que a gravação propositalmente vintage cria uma baladinha guiada ao piano e com uma melodia que pode lembrar a bastante vibe do Little Joy. Essa é mais uma canção que o vocal de Julian põe tudo a perder com seus timbres agudos.

Comedown Machine é talvez um disco ainda mais arriscado que Angles. Aqui, a banda consegue mostrar versatilidade em suas faixas, mas isso não faz dele necessariamente bom. Muitas das canções contam com uma ótima lírica, instrumentação e produção, porém não conseguem criar a mesma sinergia entre elas como havia nos álbuns anteriores. E, independente do estilo escolhido ou da mudança na sonoridade, o que mais falta aqui é coesão – no fim das contas parece que o grupo se preocupou mais em mudar do que em realmente produzir boas músicas.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts