Resenhas

The Strypes – Spitting Image

Moleques irlandeses evoluem em terceiro álbum

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Ano: 2017
Selo: EMI/Virgin
# Faixas: 13
Estilos: Rock, Pop, Rock Alternativo
Duração: 48:22
Nota: 3.5
Produção: Ethan Johns

Olhando nos arquivos do Monkeybuzz, dei de cara com uma resenha minha sobre o primeiro álbum destes irlandeses, lançado há quatro anos. Nela eu exercitava minha ranzinzice total, ponderando sobre autenticidade e influências como fatores determinantes para validar uma obra de arte. Papo chato. Não que essas instâncias não sejam importantes e sirvam, de fato, nesse exercício de verificação, mas, carambas, não precisamos nos portar assim o tempo todo, especialmente com algo tão singelo quanto a obra de The Strypes. Quem pousa os olhos e ouvidos naquela estreia e em Spitting Image, terceiro álbum dos sujeitos, terá o prazer de se esbaldar num ótimo disco de Pop com acentos de vários momentos do Rock mais clássico, tudo redondinho, feito sob encomenda para capturar corações e mentes ao redor do globo. Já aconteceu antes e voltará a acontecer. Você não tem escolha.

O que temos aqui é, de fato, uma pequena festa de guitarras, teclados e uma nítida influência que vai dos anos 1960, passa por gente como Elvis Costello e The Jam, pra cair de barrigada na piscina que Arctic Monkeys andou enchendo em seus momentos mais pesadinhos, especialmente em seu bom álbum Hombug. Sendo assim, a praia aqui é Rock de talhe clássico, mas, se você acompanha os pitacos desde amigo fã de música, já sabe que há uma instância definitiva para qualquer álbum de música popular ser bom, certo? Sim, a existência de boas canções. Este artigo, gente, felizmente existe em abundância pelos sulcos imaginários de Spitting Image. Além delas e da garra habitual do grupo, a pilotagem de estúdio ficou a cargo de Ethan Johns, sujeito que já desempenhou esta função para gente como Kings Of Leon, fato que confere um pouco mais de malandragem, ainda que as faixas tenham sido gravadas ao vivo, sem muitos retoques na mesa de som.

Ao longo das treze faixas você terá picos altíssimos de musicalidade, verdadeiras surpresas. A segunda canção, Consequence, é uma beleza total, cheia de nervosismo de bateria, alternâncias de timbres entre as guitarras e um clima de banda nova dos anos 1980, quando a gente colava o ouvido no rádio e esperava o locutor dizer quem tinha gravado aquela belezura. De alguma forma misteriosa, os sujeitos conseguem conservar esta expectativa intacta e a trazem para 2017. Já (I Need A Break From) Holidays é uma legítima representante do Pós-Punk mais enguitarrado e cheio de harmonias. Chega a lembrar algo que bandas como Stranglers poderiam ter gravado em formato demo, especialmente pela ênfase no órgão como instrumento de destaque. Outro exemplo dessa predileção pelas teclas mais clássicas é a ótima Easy Riding, toda pimpona e simpática, esbanjando refrão e andamento rapidinho. E, claro, não pode faltar aquela canção mais contemplativa, que, neste caso, passa longe da banalidade, caso de Great Expectations, cheia de harmonia e beleza.

O que torna este álbum um pouco menos simpático e legal é a sua duração, alta para para trabalhos que privilegiam energia e explosão. Depois de algum tempo, inevitavelmente, a sensação de esgotamento criativo chega e é possível perceber que algumas faixas são dispensáveis. Bom exemplo disso é Garden Of Eden, com mais de cinco minutos climáticos e torturados, soando bem diferente do restante. A tentativa de jam session com gaitinha, Oh Cruel World, que encerra os trabalhos, também é pra lá de frouxa e dispensável.

Com pecados menores e grandes acertos, The Strypes já são realidade e sobrevivem àquela pecha de “banda de garotos”, chegando ao patamar em que disputam de igual pra igual com gente grande. Seu trabalho é legal e tem lugar no cenário atual. Boa pedida.

(Spitting Image em uma música: Consequence)

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BOM PARA QUEM OUVE: Jake Bugg, Jack White, Arctic Monkeys
ARTISTA: The Strypes
MARCADORES: Pop, Rock, Rock Alternativo

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.