Resenhas

The War on Drugs – I Don’t Live Here Anymore

Com vocais sinceros, arranjos encorpados e um toque oitentista, novo disco de Adam Granduciel e companhia é uma viagem minuciosa, mas humana

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Ano: 2021
Selo: Atlantic Recording Corporation
# Faixas: 10
Estilos: Rock Alternativo
Duração: 52'
Produção: Adam Granduciel, Anthony LaMarca e Shawn Everett

Há músicas que são construídas ao redor de seus versos. Às vezes, discos inteiros são produzidos para amparar ideias e ambições criativas dos artistas envolvidos, no maior espírito “arte pela arte”. E existem trabalhos como I Don’t Wanna Live Here Anymore, que se aproveitam de toda a experiência de Adam Granduciel com seu The War on Drugs para, aparentemente, combinar letras e arranjos com o único objetivo de dar ao ouvinte uma experiência auditiva e emocional tão envolvente quanto plenamente agradável.

Conta a história que o músico e seus comparsas começaram a trabalhar na obra em 2018, um mês após o Grammy de Melhor Álbum de Rock para A Deeper Understanding (2017), e os anos seguintes foram utilizados para reunir os integrantes em diferentes estúdios e experimentar novas maneiras de polir as canções. O tempo investido com tamanho capricho serviu para aparar toda e qualquer aresta da obra, mas também para, em uma coincidência imprevisível, preparar o mundo para o tema central do disco: a resiliência frente às aflições.

Se no álbum as músicas parecem geralmente falar de questões amorosas, como fins de relacionamento, nossos ouvidos lhes recebem no pesar que marca esse tempo pandêmico que preparou o lançamento de I Don’t Live Here Anymore. Encontrar um público sensível (para não dizer “abalado”) o suficiente para querer músicas otimistas como estas é um acaso feliz, mas a maneira como as faixas se apresentam nos faz pensar que sua aceitação seria ampla independente do momento em que elas nos chegam.

A obra se inicia com “Living Proof”, também utilizada como single no anúncio do álbum. Ela prepara terreno para suas nove companheiras como os créditos iniciais de um filme, reunindo elementos como nossa consciência ao despertar pela manhã. Tudo se desenrola sem pressa, no tempo devido para nossos ânimos acompanharem a progressão da música. Quando começa a seguinte, “Harmonia’s Dream”, uma guinada de energia nos impele a continuarmos ouvindo a obra até o fim em um só fôlego.

A audição abraça o ouvinte pelos arranjos tão bem trabalhados e o vocal sincero e orgânico de Granduciel, assim como – e principalmente – por uma sonoridade oitentista irresistível. Ela logo dá as caras no álbum, mas encontra sua melhor forma na dobradinha “I Don’t Wanna Wait” e “Victim”, que nascem com cara de clássicas de estações de rádio nostálgicas. Quando a simpática “Wasted” começa, minutos depois, o ouvinte já está entregue a uma sensação digna do imaginário de uma época construído só com o que a memória guardou de melhor – principalmente a música.

Com faixas relativamente longas (a mais curta ultrapassa os quatro minutos), I Don’t Live Here Anymore é um disco que nos convida a entrar e permanecer ali sem precisar ir embora, garantindo novos abraços a cada audição, pelas emoções transmitidas por faixas tão bem arquitetadas. É um trabalho planejado e muito bem executado nos mínimos detalhes, sem nunca perder, no entanto, seu fator mais humano – e é por isso também que ele nos faz tão boa companhia.

(I Don’t Live Here Anymore em uma faixa: “I Don’t Wanna Wait”)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.