Resenhas

The Weather Station – Ignorance

Tamara Lindeman explora sentimentos universais com originalidade e evoca, magistralmente, diferentes referências do Indie e do Rock Alternativo

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Ano: 2021
Selo: Fat Possum Records
# Faixas: 10
Estilos: Indie, Rock Alternativo
Duração: 40'
Produção: Marcus Paquin e Tamara Lindeman

O texto que apresenta Ignorance menciona uma vez quando Tamara Lindeman, em uma de suas turnês com o projeto The Weather Station, decidiu confeccionar um terno feito de espelhos para usá-lo no palco. Segundo consta, ela entende que seu trabalho é feito com base em projeções do público ao vê-la encarnando o eu-lírico de suas canções. Na capa deste que é seu quarto disco, a artista canadense é vista deitada ao ar livre usando o mesmo terno.

É uma maneira honesta de apresentar sua proposta artística, e a audição do disco comprova o quanto Tamara levou a sério a intenção de estabelecer uma conexão significativa com os ouvintes. Acompanhar sua voz, de um timbre grave e sempre emotivo, pelas narrativas propostas nas músicas é um convite fácil de ser aceito logo nos primeiros segundos de álbum, quando “Robber” se mostra uma faixa introdutória complexa, mas nunca difícil em sua apreciação. Volumosa, imersiva e cheia de detalhes, a música é seguida por “Atlantic”, que compartilha com sua antecessora os mesmos adjetivos e consegue se firmar como um dos pontos altos da obra por ser ainda mais despojada, fluída. Nessa ambientação, a cantora narra uma cena de contemplação de um pôr do sol no Atlântico com uma taça de vinho na mão. Diante dessa maravilha que deixa o mar da mesma cor de sua bebida, ela pondera: “I should get all this dying off of my mind”.

O verso chega sorrateiro, deixando a força de sua honestidade falar mais alto – uma dinâmica que se segue por todo o disco, mesmo quando – a partir da terceira faixa, “Tried to Tell You” , os arranjos assumem um teor mais descaradamente Pop: saem as surpresas sutis, ficam os formatos convencionais sendo (muito) bem desenvolvidos pela cantora e sua banda, como provam faixas como “Separated” e “Parking Lot” (outro dos pontos mais altos da obra, quando ela canta sobre a indisposição de ter que explicar seus sentimentos para alguém que está ao seu lado, traçando um paralelo com o ato de subir no palco revestida de suas emoções a cada noite – “Was I not yet nakеd enough?”).

São cenas sempre muito específicas para narrar sentimentos universais que talvez não possuam nome. Algumas falam de situações comuns, como a incapacidade de esconder o que sente por alguém (“Heart”), ou a dinâmica de testemunhar uma pessoa tentar negar seus sentimentos (“Tried to Tell You”). Outras trazem quadros mais singulares, como a vontade de dançar uma canção de amor que você nunca ouviu antes (“Subdivisions”) e o desejo de se vestir do mundo inteiro (“Wear”). Em todas elas, Tamara se coloca como a portadora dos espelhos em suas vestes, para ser observada e refletir nossas projeções sobre as músicas.

Essa dinâmica faz com que Ignorance insira The Weather Station na célebre linhagem de vozes femininas que dialogam com grande sensibilidade e sinceridade dentro dos cenários do Indie e Rock Alternativo, como PJ Harvey, Fiona Apple ou até mesmo “matriarcas” do estilo, como Stevie Nicks e Joni Mitchell. Um disco para ser apreciado em sua beleza e celebrado nos significados que você, pessoalmente, encontrar.

(Ignorance em uma faixa: “Atlantic”)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.