Resenhas

The World is a Beautiful Place & I am No Longer Afraid to Die – Illusory Walls

Quarto disco do grupo traz a mesma emoção de discos anteriores, mas de forma mais precisa e diversificada

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Ano: 2021
Selo: Epitaph
# Faixas: 11
Estilos: Post-Hardcore, Emo, Indie Punk
Duração: 70'
Produção: Chris Teti and Greg Thomas

Não é apenas o nome de The World is a Beautiful Place & I Am No Longer Afraid to Die que é grande. A característica mais evidente de sua sonoridade sempre foi a grandeza, transitando por uma mescla de Emo, Post-Rock, Ambient e Post-Hardcore. Não apenas o número de membros é grande – chegando a ter quase 10 membros em um palco –, mas a escolha de cada elemento em cada música tem um objetivo de trazer uma propulsão maior para os sentimentos evocados pelas letras agressivas e honestas. Se, por meio da música, há um caminho de tornar uma emoção mais forte, seja em uma guitarra mais ecoada, um vocal mais rasgado ou uma bateria mais destruidora, é certo que o grupo optará por ele. É justamente dessa ausência de limites (ou dessa ambição) que nasce a peculiaridade catártica de seus discos. Ouvir um trabalho do grupo americano nunca é mero entretenimento – há sempre uma urgência que surge no ouvinte de sentir tudo a todo instante. Uma prova disso é o sentimento que os shows da banda proporcionam aos espectadores e ouvintes – uma experiência da qual o Monkeybuzz teve a honra de participar como parceiro de produção dos shows aqui no Brasil.

A cada disco há uma particularidade na forma com a qual se procura atingir este estado constante de grandeza e infinitude. Sua estreia em 2013, com o arrebatador Whenever, If Ever, fez do Emo um playground eterno onde cada música despertava um sentimento de liberdade quase semelhante ao da infância. Já o EP Between Bodies (2014) instiga o ouvinte por meio de letras declamadas sob uma forma spoken-word – algumas das melhores da carreira do grupo. Em Always Foreign (2017), a banda trouxe uma transição do som cru do Emo para algo mais polido e bem produzido dentro do Post-Hardcore, integrando técnicas de mixagem mais sofisticadas em prol de estimular sentimentos mais intensos dentro dessa catarse. E hoje, depois de passar por muitas mudanças de formação e um triste falecimento de um dos integrantes originais, a banda encontra-se na formação mais enxuta de sua história – fato que parece ser inversamente proporcional ao teor superlativo de seu novo disco.

Illusory Walls traz um momento de reflexão da banda. Não se trata mais de colocar tudo dentro de uma música para que ela soe maior. Parece que cada música e cada letra pede uma estética própria, por isso, é um dos trabalhos mais diversos do grupo. Ainda há todo o flerte com Emo, Post-Hardcore e Ambient, porém feitos de uma maneira mais estratégica. Como se a banda tivesse ficado mais ágil e esperta nesses anos. Portanto, o disco não apenas se apropria da catarse típica que o grupo propõe desde cedo, mas apresenta maiores dinâmicas com relação à montanha russa emocional. E as amplitudes mudam de uma forma tão drástica que o trabalho acaba nos esgotando – da melhor forma possível. Ficamos cansados porque o grupo sabe intensificar cada minúcia do espectro emocional. Durante o álbum, se uma hora estamos cantando nossas vísceras para fora, em outros estamos recolhidos apenas descansando e em modo inerte. Em um momento há todo o excesso sonoro possível, em outro o minimalismo ambiente. O que poderia parecer falta de coesão, é justamente a marca de talento do grupo.

O disco nos introduz aos poucos à catarse com “I’ll Make Everything”, faixa que cresce progressivamente – partindo da suavidade do Post-Rock até explodir na agressividade do Post-Hardcore. A banda parece seguir por caminhos complexos, trazendo uma parcela de virtuosismo para a mesa por meio de contratempos em “Invading the World of the Guilty as a Spirit of Vengeance”, faixa inspirada no jogo Dark Souls. “We Saw Birds Through the Hole in the Ceiling” incrementa a sensibilidade do grupo através de belíssimos arranjos de cordas atravessados pelas guitarras pesadas e sonoras do Emo. “Trouble” traz um flerte com o Pop Punk muito sutil, porém perceptível o suficiente para trazer uma acessibilidade maior àqueles que desconhecem o poder do grupo. Por fim, “Fewer Afraid” representa um dos momentos mais esperados em todo disco do grupo: as canções que superam a marca de 10 minutos – uma odisseia emocional própria, uma metonímia do disco.

Illusory Walls demonstra um crescimento de The World Is A Beautiful Place & I am No Longer Afraid to Die que sequer era possível imaginar. Mais espertos e assertivos em suas escolhas, o grupo consolida sua sonoridade compreendendo que são bem-vindas quaisquer referências novas – ao invés de construir uma barreira protetora e saudosista ao seu redor. Funciona tanto para os fãs saudosos dos primeiros discos, como para novos públicos. E faz sentido que as paredes que dão título ao trabalho sejam apenas ilusórias, pois é impossível conter a ferocidade da banda.

(Illusory Walls em uma faixa: “Fewer Afraid”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.