Resenhas

The Wytches – Annabel Dream Reader

Álbum de estreia do trio inglês mostra ao mundo o que é o “Doom Surf”

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Ano: 2014
Selo: Heavenly Recordings
# Faixas: 13
Estilos: Doom Surf, Surf Rock, Noise, Garage Rock e Rock Psicodélico
Duração: 46:42
Nota: 3.0
Produção: Kristian Bell, Bill Ryder-Jones

Annabel Dream Reader, disco de estreia do trio britânico The Wytches, é um daqueles que soam à moda antiga. Digo isso não só pela sonoridade híbrida de estilos dos anos 60 e 80, mas também pela sua forma de gravação e a inspiração em Edgar Allan Poe (o poema Annabel Lee deve esclarecer de onde vem o nome do álbum). Aqui, tudo soa antigo, mas sem necessariamente soar datado, sem que haja aquela impressão de que a obra foi cunhada assim simplesmente para soar de alguma forma nostálgica.

Esse tal hibridismo, algo que amalgama estilos como Surf Rock, Garage Rock, Psicodelia e Noise, foi apelidado pelo garotos, mais como uma brincadeira, como “Doom Surf”. Isso se explica com a sonoridade que se por um lado ganha com a mobilidade do ritmo praiano, por outro mostra o “horror” e plasticidade que pode adquirir. O resultado desse encontro é denso e atmosférico, mesmo em seus momentos mais agitados e divertidos (faixas como Gravedweller e Burn Out The Bruise). As letras de Kristian Bell, mesmo que não sejam exatamente seu ponto mais forte, conferem ao disco ainda mais desse sensação, ao, por exemplo, incia-lo com versos como “Please don’t cry / My train-jumping child / I am here but lost in the light / I know you and I took the last of the light / From a bulb that resembled a tear” e ainda prosseguir com “I’m not honest / Oh so selfish / And dishonest” (Digsaw).

A gravação feita de forma analógica possibilita esse disco soar de forma mais crua e quase ao vivo. É como se de certa forma fossemos transportados para o estúdio e vissemos Gianni Honey empunhando suas baquetas e judiando de sua bateria, Daniel Rumsey criando a base ora próxima ao Surf Rock, ora próxima ao Post-Punk, e Bell empunhando sua guitarra e gritando no microfone a plenos pulmões suas caóticas letras. Como uma faca de dois, isso cria equilibrio descompensado ao álbum, sendo bom e ruim ao mesmo tempo: se ele deixa as faixas animadas ainda mais animadas, deixas as baladas sonolentas demais – sorte o álbum não ter muitas delas.

Mostrando o seu “Doom Surf” do começo ao fim do álbum, as faixas seguem quase uma fórmula, por mais que não exatamente tão parecidas entre si. Como ingredientes primordiais, as músicas do trio tem sempre o Noise (que gera a atmosfera carregada do álbum), a parte Surf (invariavelmente lidando com os ecos da música de Dick Dale e seus sucessores), a lírica “gótica” e os vibratos de Bell. Com essa receita, o grupo parte para explorar outros ritmos, como Crying Clown e seu flerte com o Stoner (de projetos como Desert Sessions), Weights and Ties seguindo um clima de balada à la Suck It And See (Arctic Monkeys), Wide At Midnight com algo próximo ao peso dos primeiros anos de The Horrors, Wire Frame Mattress e seu clima Gruge ou ainda Robe For Juda que em alguns momentos pode remeter ao som que Nirvana fazia nos anos 90. Mesmo com esse dinâmica, há grande coesão no álbum, ao ponto de em uma audição destanta se perder em meio a faixas semelhantes.

Com muita energia, Annabel Dream Reader é um bom disco de estreia e mostra muitas das melhores qualidades desse trio. Mas ainda há aquela sensação de que falta algo, de que o potêncial desses três garotos não foi completamente alcançado com essa obra – o que faz sentido ao se pensar que parte dessas faixas já estão com a banda há quase quatro anos. A tríade provou que tem qualidade musical e um bom produto em suas mãos, mas ainda precisa maturar suas letras e evoluir em alguns aspectos técnicos – o que já nos deixa bem ansioso para um material genuinamente novo do grupo, que esperamos que seja lançado em breve.

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BOM PARA QUEM OUVE: Ty Segall, Nirvana
ARTISTA: The Wytches

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts