Resenhas

Thee Oh Sees – A Weird Exits

Banda americana volta com som alto e incendiário

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Ano: 2016
Selo: Castle Face
# Faixas: 8
Estilos: Lo-Fi, Rock Alternativo, Psicodelia
Duração: 39:34
Nota: 3.5
Produção: John Dwyer

Por alguma associação esquisita do inconsciente, a audição de A Weird Exits, o novo – e bom – trabalho dos americanos Thee Oh Sees, uma expressão do filme Escola de Rock me veio à mente. O professor boa praça, vivido por Jack Black, diz, em algum momento, que a missão do músico que toca Rock é “melt faces with epic guitar solos” ou “derreter rostos com solos épicos de guitarra”. É o que temos por aqui, ao longo destas oito faixas: guitarras derretedores de rostos, seja em solos psicodélicos de pedigree sessentista-Garage, seja em andamentos sustentados por guitarra-base enlouquecida e cheia de vontade de aparecer sem, no entanto, colocar algo a perder. Sabe o que bandas como The Black Keys entendem como guitarras altas? Esqueça, o que temos aqui é muito mais pesado e legal.

Sim, porque, onde essas formações do século 21 entendem que é preciso secar timbres de guitarra, pessoas como John Dwyer, vocalista, guitarrista, cérebro e produtor da banda, com um pouco mais de rodagem, discordam. A meta a ser alcançada aqui é uma sonoridade que tem origem da Psicodelia sessentista, passando pelo que bandas como Stooges e MC5 cunharam na década seguinte e que foi meio abandonado em favor de algo mais curto e grosso, via Punk. Há muito mais possibilidades para as seis cordas assumirem protagonismo num grupo por aqui. As composições de Dwyer são malucas, doentias e esporrentas, fazendo jus à fama da banda. Além disso, os outros integrantes, a saber, Tim Hellman (baixo) e a dobradinha de bateristas (!) Ryan Moutinho e Dan Rincon, fornecem sustentação e uma argamassa sonora forte o bastante para que canções multitarefas sejam colocadas em ação ao longo do álbum. Tem espaço para pequenas explosões abaixo dos três minutos de duração e para instrumentais viajantes nos quais você espera que saia um OVNI de dentro da caixa de som e pouse na sua mesa de trabalho. Vale tudo.

O álbum se inicia com duas boas e rápidas cacetadas na cara do ouvinte: Dead Man’s Gun e Ticklish Warrior, que são mais Pop no formato convencional de música, ainda que nunca optem pelos caminhos mais fáceis em termos de arranjo. A versatilidade da banda vem, justamente na primeira faixa instrumental, a boa Jammed Entrance. Ao longo de mais de cinco minutos, o grupo usa timbres estranhos para dissertar sobre possibilidades guitarreiras e tecladetes sem qualquer pudor em misturar eletrônica e gambiarra, saindo-se muito bem. Outra canção além dos cinco minutos, Plastic Plant, tem vocais doentios e agudos, parecendo crianças malucas que te perseguem pela rua quando você menos espera. Ao lado deles/delas, um instrumental vibrante e alto, com tudo mixado no meio do estômago do ouvinte, dá forma à canção, que, do meio pra frente, esquece do formato normal e se transforma numa sessão de improviso instrumental. A doideira doida – termo que usei para resenhar o trabalho de estúdio anterior, Mutilator Defeated at Last, vem materializada na levada maníaca e no título de uma canção como Gelatinous Cube, rápida e com cara de má, mas sem abrir mão de uma bela tendência para a dança suarenta.

Há faixas com pinta de normaizinhas no álbum. A aparentemente calma e supostamente Pop Unrap The Fiend pt.2, tem uma estrutura de quase banalidade, mas que é totalmente bagunçada pela guitarra de Dwyer, que conduz a boa e jovem musiquinha para caminhos não recomendáveis para o que nossos avôs e avós chamavam de “música de família”. Crawl Out From The Far Out é mais uma canção surpreendente, sem pressa para acabar e com disposição para explorar timbres e sonoridades com pé firme na experimentação. O andamento é lento, os vocais – quando surgem – são psicodélicos e espectrais, algo de bom gosto e natureza instigante, que vai deixar novos e velhos fãs de boca aberta. The Axis encerra o percurso, com um teclado que faz a cama para a guitarra de Dwyer passear por possibilidades mil.

Discos como este e bandas como Thee Oh Sees servem para nos mostrar o tanto de possibilidades que o Rock ainda tem para explorar. Pra isso é preciso talento, ousadia e pouco medo de errar, predicados que o estilo parece ter deixado de lado em algum ponto do caminho.

(A Weird Exits em uma música: Gelatinous Cube)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.