Resenhas

Thee Oh Sees – An Odd Entrances

Terceiro lançamento da banda no ano mostra-se ótimo EP

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Ano: 2016
Selo: Castle Face
# Faixas: 6
Estilos: Lo-Fi, Rock Alternativo, Psicodelia
Duração: 29:43
Nota: 3.5
Produção: John Dwyer

Tenho grande admiração por artistas que não seguem convenções mercadológicas e não abrem concessões para modismos. Os sujeitos de Thee Oh Sees são assim. Este é o terceiro disco que lançam em 2016, bastante diferente do material que estão acostumados a gravar, mas ainda com muitas conexões implícitas, feitas sob medida para fãs descobrirem significados aos poucos, como quem saboreia um bom sanduíche. Sim, porque, An Odd Entrances, este EP de seis faixas, é um acompanhante do lançamento de estúdio de três meses atrás, A Weird Exits. Além deles, o grupo também soltou um álbum ao vivo.

O grande barato aqui é, como dissemos, o som aparentemente desconexo do que a banda usualmente faz. Sabemos que em seu caldeirão vai uma mistura de Psicodelia sessentista em sua versão garageira/esporrenta, mas também corre solta uma anarquia latu sensu, uma visão de mundo ampla, que comporta sem stress uma musicalidade mais experimental e ousada. É o caso por aqui e isto se dá através de um abraço fraternal a sonoridades mais tranquilas e interessantes, como se a banda, ao invés de te chamar pra fazer stage diving, dessa vez te convidasse para dar um passeio no parque depois do almoço. É bem legal e revelador, creiam. Num conjunto de meia hora, traduzida em seis canções, as novidades surgem na divisão igual de instrumentais e faixas com vocais, o que não afeta a coesão do álbum. Há uma faixa de abertura, You Will Find It Here, que funciona como uma câmara de descompressão em relação ao trabalho anterior, uma vez que tem as convenções da banda preservadas, no sentido barulhento do termo. Em seguida, uma espantosa canção, The Poem, baixa a bola e a toca redondinha pelos verdes gramados orquestrais do Pop sessentista, com arranjo de cordas e alguns ruídos subterrâneos, que dão à faixa um clima bicho-grilesco muito de acordo com o que o grupo tem em mente. Logo após, ainda conectada com o álbum anterior, vem um instrumental que tangencia estruturas do Krautrock, Jammed Exit, que poderia estar num álbum de bandas como Stereolab ou The Sea And Cake.

Como se não bastasse, At The End, On The Stairs também vem nesta praia, só que exercendo o direito de fazer conexão com Tropicália e compositores Folk como o “Bob Dylan escocês” Donovan, tudo ao mesmo tempo. Unwrap The Fiend Pt.1 é outro instrumental belo, dotado de linha melódica invejável. Nervous Tech (Nah John fecha o disco reconectando a banda com guitarras distorcidas, ainda que o principal atrativo seja a intrigante participação dos dois bateristas do grupo num duelo discreto sob os decibéis.

Além de legal por suas canções, o EP ainda tem um atrativo: metade de sua renda será doada a uma instituição que abriga mães solteiras portadoras de HIV em San Gabriel Valley, na Califórnia, a Elizabeth House. Como podemos recomendar mais? Ouça logo.

(An Odd Entrances em uma música: The Poem)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.