Resenhas

Thee Oh Sees – Mutilator Defeated At Last

Novo álbum da banda é um caleidoscópio sonoro cheio de referências psicodélicas

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Ano: 2015
Selo: Castle Face
# Faixas: 9
Estilos: Lo-Fi, Rock Alternativo, Psicodelia
Duração: 33:22
Nota: 3.5
Produção: John Dwyer

Uma palavra serve para definir o novo disco de The Oh Sees: doideira. Na verdade, mais que isso, uma “doideira muito doida” seria a expressão mais fidedigna para traduzir o mundo no qual habita John Dwyer, cérebro (mutante?) que coordena as funções da banda. Não pense, no entanto, que Mutilator Defeated At Last é uma maçaroca concebida e tocada na base do “quanto pior e mais louco, melhor”, nada disso. É um caldo de cultura Pop dos últimos anos do século passado, no qual habitam referências cinematográficas de gosto duvidoso, bandas de garagem das quais ninguém ouviu falar e uma simpática reverência a formações da aurora da psicodelia anglo-americana, no sentido The Monkees do termo. Nada muito cerebral, nada cinzento, Thee Oh Sees está mais para caixa de lápis de cor que para noites úmidas numa Nova York opressora. Aliás, Dwyer é natural de Rhode Island, perto da metrópole, mas fixou residência na ensolarada São Francisco, onde conheceu as benesses da lisergia à beira-mar. Deu no que deu.

Thee Oh Sees existe há nove anos, quando Dwyer deixou seu projeto solo OCS em favor de uma banda de fato, lançando o primeiro álbum, Sucks Blood logo em seguida. Desde então, já são onze discos, sempre no caminho da junção da psicodelia atual com o Pop “químico” dos anos 1960. Ao longo do tempo, a banda flertou com Hardcore e até com Heavy Metal, mas Thee Oh Sees é uma formação que segue a cartilha colorida/3D da música Pop e o faz de um jeito que suas composições às vezes soam enganosamente como rascunhos, quando são, na verdade, pequenos tratados sobre simplicidade e eficiência cantante.

Este é o caso da terceira faixa deste novo álbum, Poor Queen. São pouco mais de dois minutos de levada corrida contra o tempo, impulsionada por uma guitarra safada que anda junto com um teclado de saldão de loja de música prestes a fechar. A voz de Dwyer mistura paranoia de fim de tarde com fúria adolescente. Nesse pequeno tempo de duração, a canção consegue planar sobre quase todo o Pop alternativo americano noventista e não nos deixa certos se havia essa intenção em sua gênese. É quase acaso, mas é praticamente coisa de gênio. O restante do disco não segue esse binômio acaso/eficiência, mas esconde pequenas pepitas auriculares. Web, logo na abertura, conjura paranoia metropolitana de quarto escuro mas que a mãe arruma depois do almoço, com direito a quase cinco minutos de duração nos quais o instrumental faz círculos concêntricos e enguitarrados.

A faixa seguinte, Withered Hand tem início de filme B de terror, com surpresas ocultas na névoa que se transformam em pancadaria ninja pura e simples, com vocais gritados do meio da confusão e suportados por guitarras zumbis. Turned Out Light já tem andamento mais cadenciado e decalcado das bandas clássicas sessentistas, mas com ataque inequívoco das seis cordas e com pequena passagem de órgão que homenageia as origens. O que esperar de uma canção com o título de Lupine Ossuary? Andamento aerodinâmico, mas cheio de referências de Surf Music obscura e psicodelia colorida nos timbres enguitarrados e a impressão que alguém vai pular da caixa de som no meio da sua sala de estar. Enquanto você fica esperando os vocais entrarem, se dá conta de que a faixa, contra todas as expectativas, é um endiabrado instrumental. Sticky Hulks tem introdução com um belo fraseado de órgão, que prepara o clima para praticamente qualquer coisa que possa saltar em seguida e o que temos é a alternância de vocais lisérgicos e crocâncias enguitarradas por todo o caminho. Holy Smoke, com sua introdução 100% California 1969, confunde o ouvinte, no sentido de apresentar-se como uma belíssima canção Pop dourada, com harmonias em crescente e instrumental seguro. A doideira lado B é retomada com a furiosa e adolescente pancadaria de Rogue Planet, totalmente sintonizada com as velhas películas de ficção científica, abrindo caminho para a misteriosa e intrincada Palace Doctor, com floreios e efeitos de guitarra e bateria jazzística de acaso.

Este novo disco de Thee Oh Sees é uma bela amostra do trabalho enlouquecido da banda e apresenta ao ouvinte um divertido e competente caleidoscópio sonoro de referências de hoje e ontem como uma forma criativa de entrar no amanhã. Belezinha.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.