Resenhas

Thom Yorke – Anima

Thom Yorke está investido em obrigar-nos a encarar acordados o lado oculto da mente que, em geral, só desabrocha nos sonos mais profundos

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Ano: 2019
Selo: XL Recordings
# Faixas: 9
Estilos: Eletrônica, Experimental
Duração: 47’
Nota: 4
Produção: Nigel Godrich

No espetáculo Skid (2019), da cia. de dança da Ópera de Gotemburgo, todas as coisas fluem devagar. A começar pela iluminação difusa, que penetra pelo teatro e revela aos poucos os detalhes da cenografia. Uma enorme plataforma branca, inclinada na diagonal, parece ocupar todo o espaço cênico. Conforme este cenário ganha contornos mais definidos através da luz, pequenos pontos pretos começam a deslizar para baixo: são os bailarinos, que escorrem sobre o linóleo como escorrem as gotas de chuva na janela. 

Observá-los é uma trivialidade, daquelas que acontecem quando prestamos atenção em algo antes esquecido. O tipo de coisa que fazemos quando voltamos para casa, depois de um dia exaustivo no escritório. Observá-los é, também, uma meditação sobre o tempo. Afinal, eles se arrastam como grãos de areia numa ampulheta e, movediços, parecem levar consigo um dia inteiro de vida. 

E assim eles permanecem, bailarinos enquanto objetos, em uma insistência perpétua, durante todos os quarenta minutos de coreografia. Às vezes, uma pessoa ajoelha-se e tenta escalar a estrutura agarrado à parede. Apesar disso, sucumbe à inércia da corrente que o puxa para baixo.

O palco branco de Skid, mais do que os corpos das pessoas do elenco, é a presença mais marcante do espetáculo. Colocado quase na vertical, desafia não apenas os dançarinos, como toda a configuração habitual de um teatro. E assim, o cenário se torna um agente ativo e transformador daqueles que o habitam. 

Esse tipo de abordagem marca uma tendência para a dança contemporânea. Afinal, não são raros os espetáculos que transformam o chão numa metáfora para a instabilidade ou para o movimento inexorável da vida. Em Skid, a escalada do sucesso começa, mas nunca termina. Temos a sensação de que mais vale deslizar no cansaço sonolento do mundo cotidiano. Por isso mesmo, Thom Yorke escolheu a coreografia de Skid para ser a tradução visual de seu mais novo trabalho: Anima (2019).  

Apesar de seu currículo extenso, Anima é o terceiro trabalho “solo” do músico. O álbum fala na mesma língua que seus antecessores. Ou seja, exibe um pano de fundo Eletrônico, atmosférico e de inclinação experimental. Sobre ele, contrasta a voz de Yorke, que flutua melodiosa e bastante segura de si mesma. No entanto, há uma diferença sutil por aqui: se compararmos a linha cronológica que nasce em The Eraser (2006), avança por Tomorrow’s Modern Boxes (2014) e desemboca em Anima, será fácil de perceber algo de mais palatável neste último.

Talvez Anima exiba sintomas de um músico finalmente mais aberto ao relacionamento com o público. Há no álbum um contraste entre um cenário distópico e uma espécie de gentileza. A produção abusa de projéteis eletrônicos que ricocheteiam dentro do túnel do metrô ou na tela do celular. A voz, no entanto, se conecta com uma espécie de sensibilidade muito orgânica.

O termo “anima” vem do latim, e pretende descrever uma espécie de força vital. Algo como “alma”, ou “espírito”. Na psicologia, entretanto, a expressão é junguiana, e define a parcela feminina do subconsciente no homem. Por isso, é praticamente irresistível especular sobre o significado desse título. 

À primeira vista, a sequência de músicas parece falar de um impulso que existe em cada um nós. Uma vontade de ação, que foi apropriada pela lógica capitalista e transformada em mão de obra. Outra interpretação, por sua vez, sugere algo vindo um de um nível mais pessoal. Poderíamos pensar, por exemplo, que o músico reencontra a sua força motriz no amor. Afinal, foi sobre a perda dele que ouvimos em Moon Shaped Pool (2016) do Radiohead.

A ligação entre Anima e Moon Shaped Pool não parece casual. A primeira semelhança se encontra no modo como o disco foi anunciado. A estratégia de marketing elaborada para o lançamento de ambos inclina-se para a performance artística. No caso de Anima, um anúncio foi colocado nas cidades de Londres, Dallas e Phoenix. A propaganda fazia referência a uma empresa fictícia: “aqui na Anima nós construímos algo que chamamos de Câmera dos Sonhos. Basta digitar o número e nós recuperamos seus sonhos”. Ao fazer a ligação, era possível escutar um trecho da faixa “Not the News”, e um aviso de que a empresa tinha sido forçada a declarar falência.

As parcerias em Anima são um reflexo de Moon Shaped Pool. Nigel Godrich, produtor parceiro do Radiohead, é co-autor das faixas por aqui. Já o diretor Paul Thomas Anderson, que no passado dirigiu o clipe para “Daydreaming”, foi desta vez o responsável pelo curta metragem que acompanha o disco. 

O clipe de “Daydreaming” mostra Thom Yorke passando por ambientes cotidianos sem ser notado, como se habitasse outro plano. Caminha por espaços vazios que não se conectam, o que nos leva a deduzir que o tempo que ele atravessa também não é contínuo, como o dos sonhos.

No filme de Anima, o sonho também é um tema central. A coreografia de Skid toma conta da narrativa, que mostra pessoas sonolentas cumprindo seus deveres do cotidiano. De acordo com Yorke, o tema vem de sua recente obsessão com o livro Why We Sleep. Nele, seu autor argumenta que se nós não dormimos o suficiente, não somos capazes de processar informações em nosso subconsciente. Em entrevista à Crack Magazine, Yorke declarou: “Achei que uma boa maneira para expressar a ansiedade, criativamente, se daria em um ambiente distópico”. Uma imagem de inspiração consiste justamente em pessoas viajando para o trabalho. Nesse cenário, é como se seus corpos se recusassem a cooperar, “executando movimentos involuntários”. É como se, o artista quisesse, então, nos fazer enfrentar acordados as manifestações do lado oculto da mente.

Não à toa, “Dawn Chorus”, a faixa mais emblemática de Anima, nos dá a entender que o nosso controle sobre a vida é apenas uma ilusão. “You quit your job again / Your train of thought (Você se demitiu do seu trabalho de novo / Sua linha de pensamento)”, diz a letra de maneira monotônica. A impressão é que o metrô em Anima funciona como tradução da nossa percepção alterada pelo excesso de informação e de trabalho do século XXI. Hoje em dia, perdemos constantemente o foco e pensamos através de links.

Anima, recheado de referências ao sono, alude não apenas ao cansaço da vida contemporânea, mas à falta de oportunidade em sonhar. Yorke parece querer resgatar a experiência que se esconde por trás da banalidade do cotidiano. Um mundo hiper moderno e controverso sempre foi fonte de inspiração para o compositor. No entanto, Anima, mesmo com sua solidão inata, dá a entender que uma espécie de transcendência é possível: assim como na dança, Yorke flui sobre o cenário quebrado e movediço do mundo para falar do que nos faz humanos.

(Anima em uma música: Dawn Chorus)

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ARTISTA: Thom Yorke

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.