Resenhas

Thundercat – It Is What It Is

Quarto disco mescla Jazz, R&B e elementos eletrônicos em viagem conduzida com maestria e sem excessos

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Ano: 2020
Selo: Brainfeeder
# Faixas: 15
Estilos: Soul, R&B, Jazz
Duração: 37'
Produção: Flying Lotus, Thundercat

Thundercat é superlativo. O americano Stephen Lee Brune conseguiu chegar a seu quarto álbum, It Is What It Is, provando que está muito acima das classificações comuns, como instrumentista e compositor: ele é um verdadeiro maestro da música contemporânea. Mesmo se você já for familiarizado com seu trabalho, é difícil não se impressionar com o número exacerbado de instrumentos, camadas sonoras e estilos adicionados às suas músicas, ainda que tudo esteja perfeitamente orquestrado, sem qualquer excesso.

A experiência do disco é beneficiada também pela curta duração da maior parte de suas 15 faixas, o que faz com que toda a combinação de Soul, R&B, Eletrônica e Jazz em It Is What It Is nunca fique cansativa mesmo para aqueles que não têm intimidade com essas fusões. Porque, além de tudo, veja só, o que Thundercat faz é trazer toda essa ambientação para um campo muito mais próximo da canção do que do Experimental. Em outras palavras, ele não apresenta um trabalho apenas para quem está habituado ao modo Jazz de fazer música, mas conduz o ouvinte por um campo sempre amigável no qual as composições são arranjadas com um espírito livre – e um quê de megalomania.

Isso é notado logo na sequência inicial do álbum (até porque as faixas emendam umas nas outras sem muito espaço entre elas). Enquanto a primeira (“Lost in Space/Great Scott/22-26”) faz as vezes de uma introdução convencional – poucos elementos espalhados em sons espaçados e crescentes –, “Innerstellar Love”, em seguida, introduz percussão sincopada, saxofone e todo o clima jazzístico que nos acompanhará invariavelmente até o fim. Mas isso é apresentado aos poucos, com o vocal tranquilo preparando terreno para a instrumentação ostensiva. Depois disso, “I Love Louis Cole” (com o próprio Louis Cole) acelera o andamento sem freios, confiante de que o ouvinte consegue acompanhar três minutos alucinantes. Daí também “Black Qualls” (com participações ilustríssimas de Steve Lacy, Steve Arrington e Childish Gambino) ganhar um gosto de linha de chegada.

Sem economizar no baixo, a música serve como um grande deleite para qualquer um que alguma vez na vida tenha se interessado por Soul. Ela abre alas também para outros momentos mais próximos de um Pop nostálgico, enraizado nas vertentes do R&B, que o álbum exibe, como “Dragonball Durag”, “Fair Chance” (com Ty Dolla $ign e Lil B) e “King of the Hill”. Eles são intercalados por estéticas que soam sempre novas (o que alguns chamariam de “modernas”), com o fôlego do Jazz soprando por inspirações da música Eletrônica de cunho mais Indie (como na sequência “How Sway”, “Funny Thing” e “Overseas”, com Zack Fox). E o álbum fica ainda mais completo ao encerrar o repertório com a faixa-título, na companhia do jazzista brasiliense Pedro Martins, em cinco minutos que parecem encapsular tudo o que o disco foi até agora.

Thundercat trabalha com maestria sem perder um senso de humor irônico, com sorrisos presentes nas entrelinhas das músicas e nas transições entre elas e o título It Is What It Is sendo repetido como um leitmotiv no meio das letras. A frase, que pode ser traduzida como “as coisas são como são” – aquele “c’est la vie” que expressamos no ordinário “fazer o quê?” –, tem sua simplicidade contrastada com o muito que o músico desenvolve a cada dúzia de segundos ao longo do disco. Sem pedantismo, antipatia ou uma pose cerebral artificial, é um trabalho que revela sua excelência ao passo que desvendamos o caráter naturalmente surpreendente de seu criador.

(It Is What It Is em uma faixa: “It Is What It Is”)

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ARTISTA: Thundercat

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.