Resenhas

Thurston Moore – Rock n Roll Consciousness

Em novo trabalho, músico reverencia as raízes clássicas de seu som

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Ano: 2017
Selo: Caroline
# Faixas: 5
Estilos: Rock, Rock Alternativo
Duração: 42:01
Nota: 3.5
Produção: Thurston Moore

Lá no mapeamento de DNA das bandas queridas da gente, é possível analisar as influências através de seus integrantes. No caso de Sonic Youth, um quarteto, Thurston Moore contribui com sua carga musical hippie-bicho grilo, um componente essencial da mistura sonora do conjunto novaiorquino, responsável por elevar/criar o Rock Alternativo americano logo no início dos anos 1980. A mistura de experimentalismo guitarreiro com canções Rock foi burilada ao longo da década e atingiu o formato dourado a partir de 1987, quando o grupo gravou Sister, sendo aperfeiçoada no ano seguinte, quando veio Daydream Nation. A partir daí, tudo mudou e/ou já tinha mudado. Hoje, quase trinta anos depois disso, cá está Moore em mais um álbum solo, este bom Rock’n’Roll Counsciousness, um trabalho em que fica evidente sua conexão com esta prateleira do Rock mais clássico.

Quando falamos em “Rock Clássico”, não significa falar de monotonia ou previsibilidade, mas sim de artistas e bandas como Neil Young ou Grateful Dead, quando, mesmo dentro de uma lógica mainstream do estilo, expandiram fronteiras e flexionaram o formato de suas canções. Young é o melhor exemplo, especialmente em seus momentos insanos do início da década de 1970, quando registrou canções que ultrapassavam os cinco, seis minutos de duração, temperando-as com tempestades sônicas de guitarras, longos solos e uma abordagem bem longe do usual, muito inspirada, por sua vez, nas longas jams das bandas hippie-cósmicas dos anos 1960, dentre as quais, Grateful Dead. Moore exercita este formato em algumas faixas que ultrapassam a marca dos dez minutos e se vale desta sonoridade guitarreira setentista para levar adiante suas impressões sobre os nossos tempos.

Há uma interessante bichogrilice tardia, especialmente no que diz respeito à importância da música como antídoto para as violências banalizadas do cotidiano. Cusp, segunda faixa do álbum, fala sobre um poder curativo que a audição de melodias e harmonias exercem sobre nós e da criação de um escudo protetor de Colgate à nossa volta, nos impedindo de sofrer a ação corrosiva dos maus fluidos. Essa visão é riponga, mas temos um ímpeto ancestral a acreditarmos naquilo que não vemos, ou melhor, naquilo que está além do que vemos e tal assertiva pode funcionar para a audição/percepção sem muito trabalho de adaptação. Interessante notar que a canção não é lenta, climática ou algo no gênero, mas um pulsante e simpático Rock em moldes Pós-Punk oitentista.

Há outras características sonicyouthianas por aqui. Em termos musicais, Turn On, com mais de dez minutos de duração, parece saída de Washing Machine, disco de 1994 dos sujeitos. É viajante, é longa, tem melodia violentada por hordas de guitarras barbarizantes, tudo ok. Smoke Of Dreams é a declaração de amor à Grande Maçã, ponto tradicional no cânon dos sujeitos, bem feita, com reverência e surpreendente cheiro de espírito adolescente, enquanto a faixa de abertura, a bela Exalted, contém alguns dos mais belos timbres guitarrísticos já registrados nos últimos tempos, com Moore mostrando ser um aplicado discípulo de Neil Young.

Este Rock’n’Roll Consciousness é um álbum coeso, bem feito, com uma simpática aura de rebeldia, ainda que atenda às expectativas dos fãs. É um adorável e discreto produto musical que passará discretamente em meio aos lançamentos deste ano. Cabe a você dar a ele o colo e o amor que ele merece.

(Rock’n’Roll Consciousness em uma música: Turn On)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.